O ambiente internacional atravessa uma transformação silenciosa, mas profunda. Durante o Global Trade Summit 2026, realizado em Campinas, especialistas apontaram que o comércio global deixou de ser guiado apenas por custos e passou a priorizar segurança, estabilidade e alinhamento político.
Nesse contexto, o Brasil emerge como uma alternativa estratégica relevante — uma mudança que tem atraído a atenção de empresas e governos ao redor do mundo.
Visão global
O diretor institucional da Scania, Gustavo Bonini, destacou que o país passou a ocupar uma posição diferenciada no tabuleiro internacional. Segundo ele, o mundo vive uma reconfiguração das cadeias produtivas, impulsionada por tensões geopolíticas e pela busca por parceiros mais confiáveis.
“O critério dominante já não é apenas eficiência ou custo. Hoje, a previsibilidade e a confiança pesam mais na decisão de onde investir e com quem negociar”, afirmou.
Bonini ressaltou que o Brasil se beneficia por não estar no centro de disputas geopolíticas intensas, o que amplia sua atratividade. “O país tem conseguido manter canais abertos com diferentes blocos, o que o torna uma ponte em um mundo fragmentado”, disse.
Friendshoring
Um dos conceitos centrais debatidos no evento foi o chamado friendshoring — estratégia em que países priorizam relações comerciais com nações consideradas politicamente alinhadas ou seguras.
Para Bonini, o Brasil reúne características raras nesse cenário. “Somos vistos como um parceiro equilibrado, sem conflitos estruturais relevantes. Isso nos coloca em posição privilegiada nas novas cadeias globais”, destacou.
Ele também chamou atenção para o fato de que empresas estão redesenhando suas operações para reduzir riscos. “A lógica agora é resiliência. Ter redundância e proximidade vale mais do que depender exclusivamente do menor custo.”
Desafios
Apesar do otimismo, o executivo apontou entraves importantes. A falta de acordos comerciais mais amplos e a baixa integração internacional ainda limitam o potencial brasileiro.
“O Brasil precisa acelerar sua agenda de acordos. Sem isso, corremos o risco de sermos interessantes, mas não plenamente competitivos”, avaliou.
Ele também mencionou gargalos estruturais, como logística e burocracia, que ainda impactam a eficiência do comércio exterior.
Sustentabilidade
Outro fator que fortalece a posição brasileira é a agenda ambiental. Com uma matriz energética mais limpa e forte presença de biocombustíveis, o país ganha relevância em um mundo que busca reduzir emissões.
“Temos uma combinação rara: capacidade industrial e baixa intensidade de carbono. Isso é extremamente valorizado hoje”, afirmou Bonini.
Segundo ele, a sustentabilidade deixou de ser apenas reputacional e passou a influenciar diretamente decisões de investimento.
Outras vozes
A percepção positiva não é isolada. Empresários presentes ao evento compartilharam avaliações semelhantes sobre o momento brasileiro.
Para a executiva de comércio exterior Ana Ribeiro, o país vive uma janela de oportunidade. “O Brasil nunca foi tão observado como alternativa estratégica. Há interesse real em ampliar parcerias, principalmente em setores como energia e alimentos”, disse.
Já o consultor internacional Marcos Ferraz destacou a posição diplomática brasileira. “Enquanto grandes potências enfrentam tensões, o Brasil mantém diálogo com diferentes lados. Isso gera confiança — um ativo valioso no comércio atual.”
Perspectiva
A avaliação geral é de um “otimismo cauteloso”. O Brasil reúne atributos que o tornam desejável como parceiro comercial, mas precisa avançar em reformas e integração internacional para consolidar essa posição.
Se conseguir superar seus desafios internos, o país poderá transformar o atual interesse internacional em crescimento sustentável e protagonismo econômico duradouro.
















