O Brazil Core saiu das redes sociais, conquistou passarelas internacionais e chegou ao varejo com força. Mas, para Symone Rech, pesquisadora, especialista em negócios de moda e fundadora da plataforma New & Now, a questão que mais importa para a indústria não é saber se a estética está em alta, mas entender o que ela revela sobre o consumidor e como essa busca por identidade e autenticidade pode ser convertida em estratégia de produto e diferencial competitivo.
“Eu costumo dizer que tendência passa, mas comportamento fica. O Brazil Core como estética mais literal, muito baseado em verde e amarelo, futebol, bandeira, carnaval e tropicalismo é cíclico. Ele ganha força em momentos específicos e depois naturalmente perde intensidade. Mas existe uma camada muito mais interessante por trás disso que é a busca por identidade.”, explica Rech.
Na leitura da especialista, o que sustenta o movimento não é a estampa ou o símbolo nacional, mas a necessidade crescente do consumidor por autenticidade e por produtos que contem uma história. “O Brasil deixa de ser apenas um tema e passa a ser uma linguagem. A tendência pode mudar de nome, mas a necessidade de autenticidade continua.”, diz a especialista.
Copa do Mundo como vitrine ou armadilha
Em um momento que ocorre a Copa do Mundo masculina de futebol, junto ao engajamento do país com o esporte, o calendário do setor têxtil e de moda abre uma janela estratégica de visibilidade para a identidade brasileira. Mas Rech faz um alerta direto à indústria sobre como a oportunidade pode trazer consigo um risco igualmente proporcional.
“A Copa abre uma vitrine enorme para o Brasil, mas também traz um risco de resumir nossa identidade a uma caricatura. E o Brasil é muito maior do que isso.”, destaca Rech. Para ela, o caminho está em transformar brasilidade em linguagem de produto e não em souvenir. “Está na leveza das construções, no corpo em movimento, na mistura de materiais, no artesanal, no esportivo, na forma como usamos a cor e até na nossa relação com o clima.”, conta.
De qual Brasil estamos falando?
Um dos pontos centrais da análise de Rech é a pluralidade do que se chama de “identidade brasileira”. Para ela, o maior erro da indústria é tratar o país como um bloco homogêneo e o maior acerto seria reconhecer sua diversidade como matéria-prima criativa e comercial.
“Tem o Brasil amazônico, o sertanejo, o litorâneo, o urbano, o industrial, o indígena, o afro-brasileiro, o das imigrações, o contemporâneo. Cada território carrega uma relação diferente com cor, clima, matéria, corpo e cultura.”, diz Rech.
Na prática, isso significa cartelas mais solares e fibras naturais inspiradas no Nordeste; texturas orgânicas e materiais sustentáveis com DNA amazônico; alfaiataria e camadas com referência no Sul; e um Brasil urbano, híbrido e conectado para os grandes centros. “Quando uma coleção nasce de pesquisa e não de estereótipos, ela transforma cultura em produto de forma muito mais potente.”
Brasilidade como posicionamento premium
Outro ponto que Rech contesta é a ideia de que a estética brasileira seria incompatível com um posicionamento de marca mais sofisticado. Para ela, o estigma de nicho ou sazonalidade existe quando a referência vira fantasia e desaparece quando ela vira linguagem.
A brasilidade premium, na visão da especialista, aparece em materiais naturais, técnicas artesanais, tingimentos, texturas e modelagens pensadas para o corpo e o clima brasileiros.
“Durante muito tempo, parecia que o premium precisava ter uma estética europeia, neutra e silenciosa. Hoje, o luxo também passa por identidade e autenticidade. Não precisa anunciar que é brasileira para ser profundamente brasileira. Identidade não precisa gritar, ela precisa ser percebida.”, explica.
Cultura como método, não como ocasião
Para que a identidade brasileira se consolide como ativo estratégico permanente e não apenas em anos de Copa, Rech defende uma mudança estrutural na forma como a indústria se relaciona com sua própria origem.
“Brasilidade não pode ser uma estratégia de ocasião. Ela precisa fazer parte do processo desde o início, da pesquisa ao desenvolvimento, da matéria-prima à modelagem, da cartela de cores ao posicionamento da marca.”
Segundo a pesquisadora, o problema não é falta de referência, mas a ausência de método para transformar cultura em estratégia de negócio. Enquanto o setor ainda oscila entre ignorar a própria origem e explorá-la de forma superficial, ela acredita que o caminho do meio é o mais rentável, com pesquisa aplicada, intenção criativa e consistência ao longo das temporadas.
“O Brasil não deveria ser tratado como uma tendência. O Brasil é repertório. E repertório, quando bem trabalhado, constrói marca, gera desejo e cria valor muito além de uma temporada.”, completa.
Serviço:
New & Now

















