Grandes aquisições costumam monopolizar a atenção do mercado financeiro, mas um movimento bem menos visível vem alterando o cenário empresarial brasileiro.
Empresas de médio porte têm recorrido cada vez mais a fusões, incorporações e vendas parciais como forma de fortalecer operações, ampliar presença regional e reduzir riscos em um ambiente econômico marcado pelo crédito caro e por investidores mais seletivos.
NOVO PERFIL
Ao contrário do ciclo observado há alguns anos, quando muitas empresas buscavam compradores para enfrentar dificuldades financeiras, o momento atual reúne empresários interessados em transformar seus negócios antes que desafios como sucessão, necessidade de capital ou aumento da concorrência limitem seu crescimento.
Em vez de vender integralmente a companhia, cresce o interesse por acordos que preservem parte da participação dos fundadores e tragam novos sócios capazes de acelerar a expansão.
Essa mudança também alterou o trabalho dos escritórios especializados em fusões e aquisições. Boa parte das operações envolve empresas com faturamento intermediário, governança em fase de profissionalização e forte presença em mercados regionais, características que despertam o interesse de investidores estratégicos.
“O empresário passou a enxergar a venda parcial como uma ferramenta de crescimento, e não apenas como uma saída para momentos de dificuldade”, afirma Jefferson Nesello, cofundador e managing partner da Zaxo M&A Partners.
Valor oculto
Outro aspecto pouco discutido está na forma como o valuation é construído. Se antes o desempenho financeiro era praticamente o único critério relevante, compradores passaram a atribuir peso crescente à qualidade da gestão, aos processos internos, à governança corporativa e à capacidade de expansão.
Essa mudança explica por que empresas menores conseguem despertar interesse mesmo em um ambiente de juros elevados.
Organizações que demonstram controle financeiro, baixa dependência dos fundadores e carteira diversificada de clientes costumam negociar múltiplos superiores aos de concorrentes maiores, mas menos estruturados.
Os setores de tecnologia corporativa, energia, infraestrutura, distribuição, agronegócio e serviços especializados aparecem entre os mais ativos nesse movimento, impulsionados por estratégias de consolidação e ganho de escala.
Escolhas
Outro fator que ajuda a explicar esse mercado silencioso é a mudança de comportamento dos próprios investidores. Em vez de ampliar o número de negócios, fundos e compradores estratégicos concentram recursos em empresas que ofereçam menor risco de integração e maior previsibilidade de resultados.
Essa seletividade reduziu a quantidade de operações anunciadas, mas elevou o valor médio das transações concluídas. Para muitos empresários, abrir espaço para um novo sócio tornou-se uma alternativa mais eficiente do que recorrer exclusivamente ao crédito bancário para financiar crescimento, expansão geográfica ou modernização da operação.
Assim, enquanto as megafusões seguem dominando as manchetes, é no segmento das empresas médias que ocorre uma das transformações mais relevantes — e menos percebidas — do mercado brasileiro de negócios.
















