O segundo trimestre de 2026 virou símbolo da nova fase da inteligência artificial: a Samsung projeta lucro operacional de 89,4 trilhões de wons, perto de US$ 58 bilhões, um salto de 19 vezes em relação a 2025 graças à demanda por chips de IA.
Apesar dos números históricos, mais de US$ 100 bilhões em valor de mercado desapareceram em horas, quando investidores passaram a questionar se o boom é sustentável ou se o mundo está entrando em uma nova bolha tecnológica.
Esse contraste entre lucros crescentes e nervosismo nas bolsas expõe um ponto central: nunca houve tanta riqueza gerada em tão pouco tempo por tão poucos atores.
Para Ana Luiza Farias, economista especializada em tecnologia, o caso da gigante sul-coreana é um alerta sobre concentração de poder. “Estamos vendo algo parecido com o que aconteceu na era das plataformas digitais, mas em velocidade ainda maior. Quem controla chips, nuvens e modelos de IA está definindo a próxima década da economia mundial”, afirma a pesquisadora, que acompanha movimentos de big techs em mercados emergentes.
Concentração e desigualdade
O boom da IA, assim como o da internet comercial no passado, não se distribui de forma homogênea entre países, empresas e trabalhadores.
A infraestrutura crítica — data centers, semicondutores avançados, redes de alta capacidade — está fortemente concentrada em poucos conglomerados, principalmente nos Estados Unidos, na Ásia e em alguns polos europeus.
A América Latina, com exceção de esforços pontuais, entra majoritariamente como consumidora de serviços, comprando processamento e licenças em moeda forte, enquanto exporta dados e depende de regras definidas fora da região.
No mercado de trabalho, essa assimetria se traduz em oportunidades concentradas em nichos de alta qualificação tecnológica e, ao mesmo tempo, em automação de tarefas médias e operacionais.
“O discurso oficial vende a IA como motor inclusivo de produtividade, mas quem de fato captura os ganhos são fundos globais e grupos com capacidade de investir pesado em infraestrutura”, avalia o sociólogo do trabalho Carlos Menezes.
Segundo ele, sem políticas industriais e educacionais claras, países como o Brasil correm o risco de ampliar o fosso entre uma elite superqualificada e uma massa de trabalhadores submetidos a sistemas automatizados que eles não controlam.
América Latina na periferia
Na América Latina, o efeito da nova onda de IA se expressa em três frentes: dependência tecnológica, vulnerabilidade fiscal e desigualdade social.
Governos e empresas adotam soluções de IA para gestão, segurança e atendimento, mas em geral alugando infraestrutura de nuvem e modelos desenvolvidos fora da região.
Isso significa remessa contínua de recursos para o exterior e pouca construção de capacidades locais em semicondutores, hardware avançado ou modelos de base.
Em paralelo, a regressividade tributária típica de muitos países latino-americanos limita a capacidade de o Estado investir em pesquisa própria e em políticas de inclusão digital robustas.
Falta de estratégia
No Brasil, a combinação entre entusiasmo regulatório e falta de uma estratégia industrial consistente torna o cenário ainda mais delicado. Startups e grandes grupos locais disputam nichos de aplicação, mas dependem de plataformas estrangeiras e de cadeias globais de chips para escalar.
“Sem investimento pesado em formação, centros de dados soberanos e participação ativa em debates internacionais sobre governança da IA, a região continuará comprando caro uma tecnologia sobre a qual tem pouca voz”, resume Júlia Moreira, pesquisadora de políticas públicas digitais.
Na prática, o boom da IA ameaça repetir velhas histórias: uma periferia conectada ao centro do mundo, mas cada vez mais distante de partilhar seus ganhos.















