O avanço das ondas de calor está transformando um antigo diferencial de conforto em uma oportunidade de negócios para a indústria da construção.
Soluções como tintas refletivas, telhados de alta refletância, películas inteligentes e revestimentos térmicos deixaram de ser produtos voltados apenas para edifícios sustentáveis e passaram a integrar o planejamento financeiro de incorporadoras, administradoras de condomínios e fabricantes de materiais de construção.
A mudança também abre espaço para uma disputa por inovação em um segmento que começa a ganhar escala no Brasil.
Indústria
Empresas brasileiras já produzem tintas térmicas, telhas termoacústicas, mantas refletivas e revestimentos capazes de reduzir a absorção de calor nas edificações.
O setor, antes concentrado em aplicações industriais e galpões logísticos, passou a receber encomendas crescentes de condomínios residenciais e empreendimentos comerciais interessados em diminuir a dependência do ar-condicionado.
O desenvolvimento desses materiais acompanha uma tendência internacional de adoção dos chamados “telhados frios”, que refletem maior parte da radiação solar e reduzem a temperatura das superfícies.
“O mercado deixou de vender apenas conforto. Hoje, o principal argumento é retorno financeiro por meio da economia de energia e da valorização do patrimônio”, afirma Ricardo Nogueira, diretor de desenvolvimento de produtos da fabricante EcoTherm Materiais.
Condomínios
Síndicos e administradoras passaram a incluir estudos térmicos em projetos de retrofit. Em edifícios onde áreas comuns utilizam climatização constante, a redução do ganho de calor pode representar economia significativa na conta de energia ao longo do ano.
Além da diminuição do consumo elétrico, muitos condomínios enxergam benefícios indiretos, como maior durabilidade das coberturas e menor necessidade de manutenção em equipamentos de refrigeração.
O cálculo econômico também começa a influenciar decisões em assembleias. Em vez de analisar apenas o custo inicial da obra, administradores passaram a comparar o investimento com a redução prevista nas despesas operacionais durante vários anos, aproximando essas intervenções da lógica de investimentos em eficiência energética.
Patentes
Outro movimento ainda pouco debatido ocorre nos bastidores da indústria. Fabricantes ampliam investimentos em pesquisa para desenvolver revestimentos mais eficientes, materiais com maior durabilidade e películas capazes de bloquear calor sem reduzir significativamente a entrada de luz natural.
A estratégia busca diferenciação tecnológica em um mercado que tende a crescer à medida que episódios de calor extremo se tornam mais frequentes.
“A competição deixou de acontecer apenas pelo preço. As empresas procuram registrar soluções próprias para conquistar espaço em um segmento que ainda está em formação”, explica Fernanda Azevedo, especialista em propriedade industrial.
Construção
Grandes construtoras também começam a incorporar essas tecnologias ainda na fase de projeto, evitando adaptações posteriores. A estratégia permite melhorar indicadores de eficiência energética dos empreendimentos e atender compradores cada vez mais atentos aos custos permanentes de manutenção dos imóveis.
“Já não basta entregar um edifício bonito. O consumidor pergunta quanto gastará para mantê-lo confortável durante o verão”, observa Eduardo Martins, engenheiro civil e consultor em desempenho de edificações.
Com a combinação entre temperaturas recordes, aumento das tarifas de energia e busca por imóveis mais eficientes, a tecnologia para combater o calor deixa de ser um nicho da arquitetura sustentável e passa a ocupar espaço estratégico nas decisões de investimento da construção civil, impulsionando um mercado que promete crescer muito além dos grandes centros urbanos.
















