A rotina das empresas brasileiras passou a incorporar um tipo de despesa que dificilmente aparece nos balanços financeiros, mas já preocupa gestores de diferentes setores.
O crescimento dos problemas financeiros associados às apostas online tem levado empregadores a absorver custos indiretos relacionados ao aumento do absenteísmo, da rotatividade, dos pedidos de adiantamento salarial e da demanda por apoio psicológico.
Em muitos casos, o desafio deixou de ser apenas disciplinar para se transformar em uma questão de gestão de pessoas e sustentabilidade financeira.
RH
Embora ainda existam poucas métricas padronizadas sobre o tema, departamentos de recursos humanos relatam um aumento das horas dedicadas ao atendimento individual de funcionários em situação de endividamento.
Além das negociações sobre antecipação de salários, equipes passaram a investir mais tempo na mediação de conflitos, no encaminhamento para programas de assistência e no acompanhamento de casos que afetam diretamente o desempenho profissional.
“O custo mais difícil de mensurar é o tempo das equipes envolvidas. Quando gestores, RH e lideranças precisam atuar repetidamente sobre o mesmo problema, há perda de produtividade em várias frentes”, afirma Marina Lopes, diretora de Gestão de Pessoas da consultoria Capital Humano Estratégico.
Em empresas de médio e grande porte, algumas áreas de RH começaram a elaborar protocolos específicos para situações envolvendo apostas compulsivas.
As medidas incluem treinamentos para gestores identificarem sinais de comprometimento financeiro, orientações sobre confidencialidade, encaminhamento para atendimento psicológico e critérios para concessão de adiantamentos salariais, buscando evitar decisões tomadas apenas de forma emergencial.
Saúde
Outro reflexo aparece nos planos de saúde corporativos. Operadoras e empresas responsáveis por programas de assistência ao empregado observam maior procura por atendimentos ligados à ansiedade, ao estresse financeiro e aos transtornos de comportamento associados ao jogo.
Ainda que nem todos os casos tenham origem exclusivamente nas apostas, profissionais da área afirmam que o tema passou a surgir com mais frequência durante os atendimentos.
“Os impactos emocionais normalmente aparecem antes das consequências trabalhistas mais graves. Quando o colaborador procura ajuda, muitas vezes já enfrenta dificuldades financeiras relevantes”, explica Carlos Menezes, psicólogo especializado em saúde ocupacional.
Pequenos
Se grandes empresas conseguem estruturar políticas internas, pequenos negócios enfrentam obstáculos adicionais. Sem equipes especializadas de recursos humanos, donos de comércios, oficinas e prestadoras de serviço costumam lidar diretamente com pedidos de empréstimos, faltas recorrentes e dificuldades para reorganizar escalas quando um funcionário se afasta.
Em organizações menores, a proximidade entre empregador e empregado também torna mais delicada a definição dos limites entre apoio pessoal e responsabilidade empresarial.
Muitos gestores relatam receio de negar ajuda financeira e agravar a situação do trabalhador, mas também reconhecem que a repetição dessas concessões pode comprometer o fluxo de caixa.
“Boa parte das pequenas empresas ainda reage caso a caso. A ausência de procedimentos claros aumenta o risco de decisões inconsistentes e eleva os custos ao longo do tempo”, avalia Renato Silveira, consultor em gestão empresarial.
À medida que as apostas deixam de produzir efeitos apenas no orçamento das famílias, empresas começam a perceber que prevenção, orientação financeira e suporte à saúde mental podem representar investimentos menos onerosos do que administrar, continuamente, os prejuízos provocados por uma crise silenciosa dentro do ambiente de trabalho.
















