A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa Selic em 13,75% ao ano, anunciada nesta quarta-feira (4), ocorre em um momento de pressão adicional sobre o mercado imobiliário. Além da manutenção dos juros básicos em patamar elevado, compradores que dependem de financiamento passaram a enfrentar taxas mais altas nas linhas de crédito habitacional nos principais bancos privados do país.
No Bradesco, a taxa de uma das principais linhas de financiamento residencial passou de 11,7% para 15% ao ano, mais Taxa Referencial (TR). No Itaú, o percentual mínimo subiu de 11,99% para 12,95% ao ano, mais TR. Já no Santander, a taxa de partida passou de 11,69% para 12,49% ao ano, também acrescida da TR. Os bancos relacionaram os ajustes às condições do mercado e à elevação dos juros futuros, que encarecem a captação de recursos para financiar operações imobiliárias. A Caixa, principal agente do crédito habitacional no país, ainda não havia anunciado reajuste.
Segundo Paulo Dornelle, especialista em inteligência de mercado e fundador da Okre Imóveis, a combinação entre Selic elevada e encarecimento do financiamento privado torna o ambiente mais desafiador para uma parcela importante dos compradores, especialmente aqueles que precisam recorrer ao crédito bancário para adquirir um imóvel.
“Estamos diante de dois movimentos que se complementam. A Selic permanece em um patamar elevado e os bancos privados estão repassando o aumento do custo de captação para as taxas de financiamento. Isso reduz o poder de compra das famílias, porque a prestação compromete uma parcela maior da renda. É natural que alguns consumidores adiem a decisão, procurem imóveis de menor valor ou tenham que rever o planejamento financeiro”, afirma.
O executivo ressalta que a alta dos juros dos financiamentos não deve ser analisada apenas como consequência da decisão do Copom. As taxas cobradas pelos bancos também respondem ao comportamento dos juros futuros, às condições de captação e à disponibilidade de recursos para o crédito imobiliário. Dessa forma, mesmo que a Selic permaneça estável, o custo dos financiamentos pode sofrer alterações.
Para o especialista, os efeitos também variam conforme o perfil do mercado. O segmento de alto padrão tende a apresentar maior resiliência, especialmente pela presença de compradores com maior disponibilidade de recursos próprios e menor dependência de financiamento bancário.
“Na Okre, observamos uma dinâmica diferente no alto padrão. Existe um público que tem maior capacidade de pagamento e, muitas vezes, utiliza recursos próprios para realizar a aquisição. Isso ajuda a sustentar a demanda mesmo em cenários de juros elevados. Já nos segmentos em que o financiamento representa uma parcela importante da compra, o impacto é mais direto”, explica.
Outro reflexo possível é o aumento da seletividade nas negociações. Com o crédito mais caro, compradores passam a avaliar com maior rigor o preço, a localização, o potencial de valorização e os custos envolvidos na aquisição. Para proprietários que precisam vender, a adequação do valor pedido às condições atuais do mercado pode ser determinante para fechar negócio.
O comportamento dos aluguéis também entra nessa equação. Com os valores de locação em alta, a aquisição de um imóvel continua sendo considerada por consumidores que desejam construir patrimônio e deixar de pagar aluguel. Entretanto, a comparação entre as duas alternativas precisa levar em conta o valor da entrada, as prestações, os juros e o tempo previsto de permanência no imóvel.
Na avaliação de Dornelle, a retomada mais consistente da demanda financiada dependerá de uma melhora nas condições de crédito, na renda das famílias e na confiança do consumidor. A manutenção da Selic e os recentes reajustes dos bancos privados tornam mais difícil prever uma recuperação imediata desse público.
“Não basta olhar apenas para a Selic. Precisamos acompanhar também o comportamento dos juros futuros e as condições efetivamente oferecidas pelos bancos. O financiamento é uma parte importante da engrenagem do mercado imobiliário. Quando ele fica mais caro, o acesso à compra se torna mais restrito e o setor precisa se adaptar a um consumidor mais criterioso”, conclui.














