A renovação de contratos de aluguel em julho de 2026 trouxe uma sensação de aperto crescente para milhares de moradores do Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília: o valor da mensalidade aumenta, mas a renda familiar não acompanha.
Em muitas regiões, o custo do aluguel já supera 40% do salário, criando um risco real de expulsão de bairros tradicionais e até de cidades.
Quem paga mais
Em São Paulo, os aluguéis mais altos concentram-se em zonas como Pinheiros, Vila Madalena e parte da Zona Sul, onde o metro quadrado pode chegar a mais de R$ 25.
No Rio, bairros como Leblon, Ipanema e parte da Zona Norte enfrentam aumento de até 15% em relação ao ano anterior. Brasília, por sua vez, tem pressionado moradores de áreas como Asa Sul e Lago Norte, com reajustes de 10% a 12% em contratos recentes.
A pesquisadora de urbanismo Clara Mendes, da Fundação Instituto de Pesquisas Urbanas, afirma que “quem paga mais caro hoje são famílias de baixa e média renda que moram em áreas valorizadas, mas não têm perfil de renda para se adaptar aos novos preços”.
O resultado é que muitas optam por sair de bairros completos em infraestrutura e serviços, transferindo-se para periferias mais distantes.
Por que aumenta
A pressão vem da combinação de três fatores: alta de preços de imóveis, migração urbana e política de zoneamento. A valorização de apartamentos e terrenos, motivada por investimentos em infraestrutura e segurança, atrai espectadores de outras regiões e investidores.ao mesmo tempo, a migração de pessoas de outras cidades e estados aumenta a demanda por moradia em áreas já saturadas. Finalmente, o zoneamento restringe a construção de novos imóveis em zonas densas, limitando a oferta e elevando os preços.
O economista Ricardo Araújo, especialista em mercado imobiliário, explica que “a política de zoneamento, muitas vezes pensada para proteger o padrão de bairro, acaba funcionando como barreira à expansão de oferta, o que gera gargalo e aumenta o preço do aluguel para quem precisa morar perto de trabalho e serviços”.
Casos reais
Em São Paulo, um casal de professores da rede pública de Pinheiros teve que aceitar um aumento de 18% no valor do aluguel ao renovar o contrato em julho.
Com a renda estável, eles não conseguiram negociar e optaram por mudar para uma região mais distante, com transporte mais caro e tempo de deslocamento maior.
No Rio, uma família de três pessoas em Ipanema enfrentou aumento de 14% e foi obrigada a sair após o proprietário não aceitar nova proposta de valor.
Em Brasília, uma trabalhadora autônoma de Asa Sul relatou aumento de 12% no aluguel e risco de não conseguir renovar o contrato. Ela busca alternativas em áreas mais periféricas, mas teme perder o acesso a escolas e serviços de saúde próximos.
Como não ser expulso
A primeira estratégia é a renegociação antecipada: conversar com o proprietário antes da renovação, apresentando propostas de valor médio ou propostas de pagamento em parcelas.
A segunda é o uso de programas de apoio: em algumas cidades, existem linhas de crédito ou subsídios para famílias de baixa renda que buscam moradia próxima ao trabalho.
A terceira alternativa é a mobilização coletiva: moradores de um mesmo prédio ou bairro podem se articular para negociar aumentos conjuntos, pressionando proprietários e sindicato de locatários.
Clara Mendes ressalta que “a chave é antecipar a conversa e buscar alternativas antes de receber o aviso de aumento; quem negocia sozinho, muitas vezes, perde o tempo e a chance de manter a moradia”.
Alternativas para famílias de baixa renda
Entre as opções viáveis, destacam-se: busca de imóveis em áreas com menor valorização, mas ainda com acesso a transporte coletivo; participação em programas de habitação social; e uso de redes de apoio comunitário para encontrar oportunidades de aluguel compartilhado.
A ideia é manter proximidade com trabalho e serviços, sem comprometer a renda familiar.
Ricardo Araújo observa que “a solução não é apenas individual, mas política: a cidade precisa ampliar oferta de moradia em áreas centrais e criar instrumentos que protejam o direito de morar, não apenas o direito de investir”.

















