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Home Empresas / Negócios

Tarifaço pode atingir mais quem vende pouco aos EUA. As empresas mais blindadas ao novo tarifaço

Possibilidade de novas tarifas sobre produtos brasileiros já começou a provocar movimentações silenciosas em empresas exportadoras

José Pinheiro Júnior por José Pinheiro Júnior
5 de junho de 2026
em Empresas / Negócios
0
Trump

Donald Trump/Foto: Divulgação

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Embora o debate público tenha se concentrado nos impactos gerais para a balança comercial e para as relações diplomáticas entre os dois países, um aspecto ainda pouco explorado pode definir quem sofrerá mais e quem conseguirá atravessar a turbulência quase sem arranhões: o grau de dependência do mercado americano.

A investigação comercial conduzida pelo governo dos Estados Unidos aumentou a insegurança em diversos setores da economia brasileira. Mesmo antes de qualquer decisão definitiva, companhias exportadoras passaram a revisar contratos, buscar novos compradores e recalcular investimentos previstos para os próximos meses.

O cenário cria um mapa de vencedores e perdedores que vai muito além dos números gerais das exportações.

Dependência

Os setores mais vulneráveis são aqueles que possuem forte concentração de vendas para os Estados Unidos. Nesses casos, uma tarifa adicional pode reduzir a competitividade dos produtos brasileiros da noite para o dia.

Empresas ligadas à siderurgia, produtos metálicos, madeira processada, máquinas industriais, autopeças e determinados segmentos do agronegócio aparecem entre as mais expostas. Em muitos desses mercados, o comprador americano representa uma parcela significativa da receita internacional.

Quando o preço sobe por causa de uma tarifa, o importador tende a procurar fornecedores em outros países. Essa substituição nem sempre acontece imediatamente, mas o simples risco de perda de competitividade já influencia decisões de compra.

“O problema não é apenas a tarifa em si. O maior risco é a incerteza. Muitos compradores preferem congelar negociações até entender qual será o novo ambiente regulatório”, afirma Ricardo Tavares, economista especializado em comércio exterior.

Segundo ele, empresas que dependem de um único grande mercado costumam sentir os efeitos antes mesmo da implementação das medidas.

Blindagem

Por outro lado, algumas companhias podem enfrentar a situação com relativa tranquilidade.

Empresas que construíram presença em diferentes regiões do mundo possuem maior capacidade de adaptação. Exportadores que atendem simultaneamente Europa, Oriente Médio, Ásia e América Latina tendem a redistribuir parte das vendas caso o mercado americano se torne menos atrativo.

O mesmo vale para negócios cujo foco principal permanece no mercado interno.

Embora uma desaceleração das exportações possa afetar as receitas, a dependência menor dos Estados Unidos funciona como uma espécie de amortecedor econômico.

Setores ligados ao varejo doméstico, serviços, construção civil, saúde suplementar e parte da indústria de consumo tendem a sofrer impactos indiretos mais limitados.

Efeito oculto

Existe ainda um fenômeno que recebe pouca atenção: o impacto sobre fornecedores.

Quando uma grande exportadora perde competitividade, os efeitos se espalham por toda a cadeia produtiva. Empresas menores responsáveis por logística, embalagens, componentes, transporte e manutenção também podem ser atingidas.

Em muitos casos, essas companhias sequer exportam diretamente.

Ainda assim, dependem da atividade de clientes que vendem para o exterior.

“A discussão costuma focar nos grandes grupos exportadores, mas milhares de pequenas e médias empresas podem sentir os reflexos sem aparecer nas estatísticas do comércio internacional”, observa Helena Martins, consultora em desenvolvimento industrial e cadeias produtivas.

Segundo ela, a redução de pedidos pode afetar regiões inteiras que concentram atividades ligadas à exportação.

Novas rotas

Diante da incerteza, cresce a busca por mercados alternativos.

Empresas brasileiras já avaliam oportunidades em países asiáticos, no Oriente Médio e em economias emergentes que ampliaram suas importações nos últimos anos.

A estratégia não é simples. Cada mercado possui exigências regulatórias, padrões de qualidade e estruturas logísticas diferentes.

Mesmo assim, muitos executivos enxergam a diversificação como uma necessidade permanente e não apenas uma resposta emergencial ao atual impasse com Washington.

Essa mudança pode acelerar um movimento que vinha ocorrendo lentamente: a redução da dependência histórica de poucos parceiros comerciais.

Oportunidades

Curiosamente, algumas empresas podem até encontrar oportunidades em meio à crise.

Caso concorrentes de outros países também enfrentem barreiras ou dificuldades logísticas, determinados nichos podem permanecer abertos aos produtos brasileiros. Além disso, a necessidade de buscar novos destinos pode estimular investimentos em inovação, eficiência operacional e diferenciação de produtos.

Empresas que conseguirem transformar a pressão externa em estratégia de expansão poderão sair do episódio mais fortalecidas.

Próximos passos

O desfecho da investigação americana ainda será determinante para medir a dimensão dos impactos. Entretanto, uma conclusão já parece evidente: os efeitos não serão distribuídos de maneira uniforme.

Enquanto setores altamente dependentes do mercado americano enfrentam um período de cautela, empresas mais diversificadas ou voltadas ao consumo interno tendem a demonstrar maior resistência.

Mais do que uma disputa comercial entre dois governos, o episódio funciona como um teste para a capacidade das empresas brasileiras de reduzir dependências e construir negócios preparados para enfrentar mudanças bruscas no cenário internacional.

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