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Acupuntura ganha espaço no alívio de dores crônicas e atrai mais pacientes no Brasil

Prática milenar reconhecida pela OMS e incluída no rol da ANS vive expansão acelerada no país, impulsionada pelo avanço da dor crônica, pela regulamentação profissional aprovada em 2026 e pela busca por alternativas ao uso prolongado de medicamentos.

Redação por Redação
24 de abril de 2026
em Saúde, Geral
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Acupuntura ganha espaço no alívio de dores crônicas e atrai mais pacientes no Brasil
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Em uma clínica de ortopedia no setor Bela Vista, em Goiânia, a agenda de acupuntura lota semanas antes. A cena se repete em consultórios particulares, unidades do SUS e clínicas credenciadas a convênios em praticamente todas as capitais brasileiras.

Por trás do aumento da procura há um dado que explica o movimento: a Pesquisa Nacional de Saúde mais recente apontou que 21,6% dos adultos brasileiros relatam dor crônica na coluna, e o Ministério da Saúde, por meio do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos, identificou que 36,9% dos brasileiros com mais de 50 anos convivem com dores constantes.

O número é expressivo e pressiona o sistema. Boa parte desses pacientes recorre durante anos a anti-inflamatórios, relaxantes musculares e opioides leves, muitas vezes sem acompanhamento especializado.

Diante desse quadro, a acupuntura deixou de ser vista como prática alternativa e passou a se consolidar como terapia complementar reconhecida e economicamente relevante dentro do mercado de saúde.

Uma tendência que movimenta clínicas e planos de saúde

O setor de saúde suplementar no Brasil fechou 2024 com mais de 52 milhões de beneficiários, o maior número já registrado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

Se a prevalência de dor crônica na coluna apontada pelo IBGE for aplicada a essa base, o país tem mais de 10 milhões de pessoas potencialmente elegíveis para sessões de acupuntura cobertas por seus planos.

A prática está no rol de procedimentos obrigatórios da ANS desde 2008, e a agência não estabelece limite de sessões: o número é definido pela prescrição médica, conforme a necessidade clínica do paciente.

Apesar disso, o conhecimento sobre o direito à cobertura segue baixo. Muitos beneficiários ignoram que o plano é obrigado a custear as sessões quando indicadas por profissional habilitado, e o próprio profissional de saúde nem sempre inclui a acupuntura no plano terapêutico inicial.

A distância entre o direito e o uso efetivo virou um gargalo que o mercado privado começou a enxergar como oportunidade. Clínicas de ortopedia, fisiatria e medicina da dor passaram a estruturar setores específicos de práticas integrativas, ampliando equipe, agenda e divulgação do serviço.

O Ipasgo como estudo de caso regional

Em Goiás, o movimento ganha contornos próprios. O Instituto de Assistência dos Servidores Públicos do Estado de Goiás (Ipasgo) é um dos maiores convênios estaduais do Centro-Oeste e passou a credenciar, nos últimos anos, uma rede de clínicas que oferecem acupuntura como parte do tratamento ortopédico integrado.

A demanda vem principalmente de servidores com quadros de lombalgia crônica, artrose, fibromialgia e dores persistentes no pós-operatório, que antes dependiam apenas do tratamento medicamentoso.

O atendimento, conforme explicado por acupunturistas do Ipasgo que atuam em clínicas credenciadas na capital, começa sempre pela avaliação do ortopedista, que define o diagnóstico, indica a terapia e emite o encaminhamento que autoriza as sessões pelo convênio.

A autorização costuma sair em blocos, com renovação atrelada à evolução clínica, e o paciente realiza as sessões na mesma clínica em que faz o acompanhamento ortopédico. Essa integração entre consulta e terapia tem sido apontada como um dos fatores que explicam o aumento na procura, já que reduz a barreira logística que antes afastava o beneficiário do tratamento.

O modelo replica o que já acontece em capitais como São Paulo, Belo Horizonte e Curitiba, onde redes hospitalares incorporaram a acupuntura ao pacote ambulatorial ortopédico.

A diferença em Goiânia é a velocidade da expansão: o Centro-Oeste concentra hoje um dos maiores crescimentos proporcionais no número de sessões realizadas por convênio, segundo levantamentos setoriais feitos a partir de registros de procedimentos informados à ANS.

Dor crônica e mercado de trabalho: o custo que ninguém vê

A dor crônica não é um problema apenas clínico. Dados do Ministério da Saúde mostram que 30% dos brasileiros acima de 50 anos com dores constantes fazem uso regular de opioides, e a The Lancet associa o quadro à queda de produtividade, absenteísmo e afastamento precoce do trabalho. Para o setor corporativo, isso se traduz em custos diretos com afastamentos previdenciários e indiretos com queda de rendimento.

Estimativas da Organização Mundial da Saúde indicam que a lombalgia atingiu 619 milhões de pessoas no mundo em 2020, com projeção de 843 milhões até 2050. No Brasil, entre 70% e 85% da população terá pelo menos um episódio de dor nas costas ao longo da vida.

A doença da coluna é a segunda morbidade mais prevalente no país, atrás apenas da hipertensão arterial. Em números absolutos, significa uma pressão permanente sobre o sistema público, o mercado de planos de saúde e o mercado de trabalho.

Esse cenário explica por que a acupuntura passou a ser tratada por operadoras e clínicas como item estratégico. O custo médio de uma sessão é baixo quando comparado ao uso prolongado de medicamentos e à rotina de consultas com especialistas diversos para sintomas que não cedem.

E a resposta clínica, quando o tratamento é bem indicado, tem respaldo científico consolidado: estudos reunidos pela própria OMS apontam alívio em 55% a 85% dos casos de dor crônica submetidos à técnica.

Quando a dor muda de lugar e confunde o diagnóstico

Parte do que impulsiona a busca pela acupuntura é justamente o tipo de queixa que mais desafia os consultórios: a dor que anda pelo corpo, aquela que hoje aparece no ombro, amanhã na lombar, depois no quadril, sem lesão específica identificada por exame de imagem.

O fenômeno tem nome na literatura médica, dor difusa, e costuma estar associado a fibromialgia, tensão muscular crônica, transtornos de ansiedade e processos inflamatórios de origem não estrutural.

Para esse perfil, o tratamento puramente medicamentoso costuma ser insuficiente. É onde a acupuntura se encaixa com mais eficiência, por atuar na regulação do sistema nervoso, na liberação de endorfinas e no relaxamento muscular em múltiplos pontos simultaneamente.

Pesquisa publicada no Brazilian Journal of Health Review em 2023 concluiu que a técnica atua como ferramenta relevante no alívio das dores, com muitos benefícios e poucos riscos, inclusive em quadros de lombalgia crônica agudizada.

Estudo da USP em parceria com a Unisul, publicado no JAMA Network Open, também reforçou o potencial da acupuntura auricular como coadjuvante no tratamento de quadros depressivos, frequentemente associados à dor crônica.

Regulamentação profissional muda o jogo em 2026

O marco legal mais recente do setor veio no início de 2026. O governo federal sancionou a Lei nº 15.345, que regulamenta o exercício profissional da acupuntura no Brasil.

Até então, a prática era disciplinada de forma fragmentada pelos conselhos de classe de médicos, fisioterapeutas, enfermeiros e outros profissionais habilitados. A nova legislação estabelece critérios de formação e qualificação obrigatória, o que na prática cria um padrão mínimo de competência técnica em todo o território nacional.

Para o paciente, a consequência imediata é mais segurança na hora de escolher onde se tratar. Para o mercado, a regulamentação consolida a acupuntura como um serviço de saúde formal, regulado e auditável, o que facilita o credenciamento junto a operadoras, reforça a exigência de cobertura e dificulta a atuação de profissionais sem preparo técnico.

A avaliação de entidades setoriais é que a lei tende a acelerar o processo de profissionalização de clínicas e a aumentar a oferta de serviço em cidades de médio porte, onde antes o acesso era limitado.

O que explica o crescimento da procura

Vários fatores se somam para explicar o momento favorável. O primeiro é demográfico: o envelhecimento da população brasileira amplia automaticamente o número de pessoas com quadros musculoesqueléticos crônicos.

O segundo é clínico: a preocupação com o uso prolongado de opioides e anti-inflamatórios, que nos Estados Unidos e Canadá já produziu uma crise sanitária documentada, leva médicos brasileiros a olharem com mais interesse para alternativas com menor risco de dependência e efeitos colaterais.

O terceiro fator é econômico. “A dor crônica tem custo alto tanto para quem paga plano de saúde quanto para quem depende do SUS. Uma sessão de acupuntura, mesmo repetida em ciclos de dez a vinte atendimentos, sai mais barata do que meses de medicação contínua, exames repetidos e consultas com múltiplos especialistas”, apontam profissionais do COE, centro ortopédico com atendimento de acupuntura em Goiânia.

E o quarto é cultural: a geração que hoje tem entre 40 e 60 anos, faixa etária com maior prevalência de dor na coluna, é também a que mais aceita terapias integrativas e busca ativamente informação sobre o próprio tratamento.

O que mudou para quem atua no setor

Para clínicas que oferecem acupuntura, o desafio deixou de ser convencer o paciente a experimentar. Hoje, o gargalo está em três frentes: formação de equipe qualificada, integração com especialistas de outras áreas e gestão da burocracia com operadoras. As clínicas que estruturaram esse tripé ampliaram consultório, contrataram mais profissionais e passaram a trabalhar com agenda cheia.

Do lado das operadoras, a tendência é incluir a acupuntura em campanhas de saúde preventiva, especialmente para beneficiários com histórico de dor crônica e afastamentos.

Algumas empresas do mercado corporativo também começaram a oferecer o serviço como benefício adicional, dentro de programas de bem-estar. O raciocínio é direto: funcionário com dor tratada falta menos, produz mais e usa menos medicação.

Os dados disponíveis sugerem que o movimento não é passageiro. A combinação de envelhecimento populacional, regulamentação profissional, reconhecimento científico e pressão por controle de custos cria um ambiente favorável para que a acupuntura siga ampliando participação no mercado de saúde brasileiro.

O que até pouco tempo era descrito como prática complementar passa, agora, a figurar em planejamentos estratégicos de clínicas, hospitais e operadoras, como um serviço que responde a uma demanda clínica real e a uma oportunidade comercial concreta.

Para o paciente que convive com dor há anos, tomando analgésico atrás de analgésico sem resposta duradoura, a notícia mais relevante talvez seja a mais simples: o tratamento existe, tem respaldo científico, está previsto no contrato do plano de saúde e, em muitas cidades, já conta com estrutura especializada pronta para atender.

Saber disso, e exigir o direito à cobertura, é o primeiro passo para transformar a dor crônica em uma condição manejável, sem depender apenas do comprimido.

Tags: AcupunturaDestaqueDores
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