O desempenho da economia brasileira no primeiro trimestre de 2026 surpreendeu analistas e empresários. Impulsionado pelo aumento do consumo das famílias e pela retomada dos investimentos, o Produto Interno Bruto (PIB) registrou crescimento acima das projeções do mercado.
O resultado reforçou a percepção de que a atividade econômica segue resiliente, mesmo em um ambiente de juros ainda elevados.
Mas, apesar dos números positivos, os benefícios desse crescimento não estão sendo distribuídos de forma homogênea entre os setores.
Enquanto algumas empresas ampliam vendas e planejam investimentos, outras continuam enfrentando dificuldades para acessar crédito e financiar sua expansão.
Dois ritmos
Os efeitos do crescimento econômico são percebidos de maneiras distintas conforme o porte e o segmento das empresas. Setores ligados ao consumo, serviços e infraestrutura estão entre os mais beneficiados pela maior circulação de renda.
“A demanda voltou a crescer de forma consistente desde o início do ano. Estamos registrando aumento de pedidos e retomando projetos que haviam sido adiados em 2024 e 2025”, afirma Ricardo Tavares, diretor-presidente de um fabricante de equipamentos industriais.
Por outro lado, empresas que dependem fortemente de financiamentos continuam sentindo o peso dos juros elevados. Embora a expectativa do mercado seja de novos cortes na taxa Selic ao longo do ano, o desempenho robusto da economia pode levar o Banco Central a agir com mais cautela.
“O crescimento do PIB é positivo, mas também pode alimentar pressões inflacionárias. Isso reduz a velocidade dos cortes de juros e mantém o custo do crédito em níveis altos”, explica Helena Duarte, economista-chefe da consultoria Mercado & Tendências.
Crédito caro
Para pequenas e médias empresas, o cenário ainda exige atenção. Mesmo com o aumento das vendas em alguns segmentos, muitas organizações relatam dificuldades para financiar estoques, modernizar equipamentos ou ampliar operações.
É o caso da rede de lojas de materiais para construção Constrular, presente em três estados do Sudeste. Segundo o diretor financeiro da empresa, Marcelo Fonseca, a procura por produtos cresceu nos últimos meses, mas o acesso ao crédito continua sendo um obstáculo.
“Temos oportunidades para abrir novas unidades, porém os financiamentos seguem caros. Muitas empresas acabam adiando investimentos porque o retorno demora mais quando os juros permanecem elevados”, afirma.
Setores líderes
Entre os segmentos que mais contribuem para o crescimento econômico estão serviços, comércio, tecnologia e parte da indústria voltada ao mercado interno.
O agronegócio também mantém participação relevante, embora em ritmo mais moderado em comparação aos anos anteriores.
Já setores mais dependentes de crédito de longo prazo, como construção civil e alguns ramos industriais, ainda enfrentam desafios para acelerar seus projetos.
Segundo Helena Duarte, o cenário atual revela uma economia em expansão, mas com ganhos seletivos. “O crescimento está acontecendo, porém seus efeitos variam conforme a capacidade das empresas de investir e acessar financiamento. Os próximos meses serão decisivos para entender quem conseguirá transformar esse momento em crescimento sustentável.”
Enquanto o debate sobre os juros continua, empresários acompanham atentamente os próximos movimentos da política monetária. Afinal, para muitos deles, o verdadeiro impacto do crescimento econômico dependerá menos do PIB e mais do custo do dinheiro.














