A chegada da Bath & Body Works ao Brasil, com a inauguração de sua primeira loja em julho de 2026, não é apenas mais um corte de fita em shopping de alto padrão.
Ela funciona como vitrine de uma mudança mais profunda: centros comerciais brasileiros passam a disputar grifes internacionais como ativos estratégicos, tão importantes quanto âncoras tradicionais de moda e alimentação.
Ao trazer uma marca conhecida globalmente por fragrâncias, velas e produtos de cuidado pessoal, o varejo local se reposiciona para um público disposto a pagar mais por experiência e narrativa de marca.
Essa expansão silenciosa mexe na lógica de ocupação dos corredores, na forma como os shoppings se comunicam e, principalmente, no lugar que as marcas brasileiras ocupam nesse novo tabuleiro.
Mix em transição
Nos bastidores, administradoras de shopping têm redesenhado o mix de lojas para aumentar a participação de nomes globais, em especial nas categorias de beleza, wellness e lifestyle.
Contratos longos com grifes estrangeiras são vistos como garantia de fluxo qualificado, o que influencia inclusive a localização de marcas nacionais, empurradas para corredores secundários ou espaços menores.
“Quando uma marca como a Bath & Body Works chega, o entorno inteiro muda: vitrines vizinhas são repaginadas, quiosques são reposicionados e o marketing do shopping passa a girar em torno da novidade internacional”, afirma Ricardo Teles, diretor de operações de uma rede de centros comerciais.
Essa reorganização física e simbólica faz com que o consumidor associe determinados shoppings a um “passaporte” para o consumo global, mesmo sem sair da cidade.
Pressão nas nacionais
Para fabricantes brasileiros de higiene e perfumaria, a presença de uma gigante internacional dentro do mesmo corredor representa uma pressão dupla.
Por um lado, há concorrência direta em categorias como sabonetes líquidos, cremes corporais e fragrâncias de ambiente; por outro, existe o desafio de disputar atenção com uma marca que chega com forte apelo aspiracional e comunicação internacional.
“Não é só uma questão de preço; é uma questão de narrativa. As marcas estrangeiras vendem uma sensação de pertencimento a um lifestyle global, e nós precisamos responder com identidade própria, sem tentar copiar”, avalia Marina Prado, diretora de marketing de uma tradicional empresa brasileira de perfumaria.
Essa resposta passa por desenvolver linhas mais autorais, explorar ingredientes locais e fortalecer canais digitais, para que a relação com o cliente não dependa apenas da posição conquistada dentro do shopping.
Estratégias de preço
A entrada de grifes estrangeiras costuma reposicionar a régua de preço da categoria, criando quase um “andar de luxo” em higiene e perfumaria.
Loja com design sofisticado, embalagens trabalhadas e campanhas em inglês tende a justificar valores mais altos por produtos de uso diário, deslocando o referencial do consumidor.
Marcas nacionais, por sua vez, se veem obrigadas a decidir se acompanham esse salto de preço para tentar competir em percepção de qualidade, ou se reforçam o papel de alternativas mais acessíveis, com foco em volume.
Essa escolha estratégica tem efeitos concretos no bolso: uma visita rápida a um shopping pode revelar prateleiras em que um hidratante nacional custa metade do importado, mas precisa se explicar mais para convencer um público seduzido pela etiqueta estrangeira.
Experiência em foco
O caso Bath & Body Works ilustra um movimento em que a experiência de compra passa a valer tanto quanto o produto em si.
Layout sensorial, música, atendimento treinado para estimular testes e combinações de fragrâncias transformam a loja em ambiente de experimentação, não apenas em ponto de venda.
“Estamos vendo uma migração do conceito de ‘loja de perfumaria’ para o de ‘espaço de experiência olfativa’. Isso eleva a expectativa do consumidor e reconfigura o padrão mínimo que outras marcas terão de oferecer”, analisa Luísa Moreno, consultora especializada em varejo de beleza.
Nesse contexto, empresas brasileiras que ainda apostam em espaços mais tradicionais precisam repensar a jornada, iluminação, comunicação visual e até o papel do vendedor, sob risco de parecerem datadas ao lado das novas grifes globais.
Próximos passos
A inauguração da primeira loja é apenas o ponto de partida de uma expansão que tende a se espalhar por capitais e polos regionais com maior poder de consumo.
Com cada nova unidade, o efeito se multiplica: mais shoppings se candidatam a receber marcas internacionais, mais contratos são renegociados e mais espaço é disputado entre players locais e globais.
Se por um lado o consumidor ganha variedade e acesso a rótulos antes disponíveis só em viagens, por outro o varejo nacional é forçado a acelerar seu processo de profissionalização e diferenciação para não perder relevância.













