Um estudo da FGV calcula em mais de R$ 113 bilhões o impacto econômico do Airbnb no Brasil em 2025, oferecendo um retrato impressionante da força das plataformas na economia nacional.
Ao somar hospedagens, serviços correlatos e movimentação indireta em comércio e transporte, a pesquisa ajuda a consolidar a percepção de que a economia de plataformas já é parte estrutural do turismo.
Mas, enquanto os números chamam a atenção, o debate público permanece concentrado em grandes metrópoles e na frase feita “Airbnb encarece aluguel”, deixando à sombra o que acontece em cidades turísticas médias e em destinos periféricos.
É nesses lugares, longe dos holofotes, que os efeitos urbanos se mostram mais cruéis para moradores permanentes e mais vantajosos para quem consegue transformar imóvel em ativo turístico de alta rotatividade.
Cidades médias
Em cidades turísticas de porte médio, muitas vezes dependentes de um calendário sazonal de festas, praias ou circuitos religiosos, o Airbnb surge como solução rápida para captar a demanda crescente sem exigir novos hotéis.
Bairros antes marcados por residências de longa permanência passam a receber anúncios de temporada, concentrados perto de praças centrais, orlas e eixos gastronômicos.
Essa transformação muda a composição do entorno: de um lado, mais carros com placa de fora, mais malas, mais trânsito de fim de semana; de outro, menos vizinhos conhecidos, mais portas fechadas entre uma locação e outra.
“Na alta temporada, metade da minha rua vira hospedagem; os novos ‘moradores’ ficam três dias, fazem festa e vão embora. Quem vive aqui o ano inteiro passa a ser minoria”, relata André Vasconcelos, professor de história e morador de uma cidade turística do interior fluminense.
Periferias turísticas
Em destinos periféricos, como bairros afastados de centros históricos ou comunidades com vista privilegiada, o Airbnb reforça uma geografia seletiva do turismo.
Imóveis com visual atrativo ou proximidade de pontos de interesse passam a ser anunciados, muitas vezes em regime informal, sem registro em órgãos municipais ou pagamento de tributos locais.
Isso pode gerar uma sensação paradoxal: a região continua carente de equipamentos públicos e serviços, mas vê circular turistas com alto poder de consumo, que deixam dinheiro em restaurantes nichados e experiências específicas.
Essa monetização desigual acentua a distância entre moradores que conseguem “entrar no jogo” da plataforma e aqueles que seguem vendo o bairro apenas como lugar de moradia e trabalho, sem participação real nos ganhos.
Informalidade
A economia de plataformas, ao mesmo tempo que abre novas fontes de renda, alimenta uma zona cinzenta entre atividade formal e informal.
Muitos anfitriões operam sem CNPJ, sem recolher impostos e sem seguir regras de hospedagem, apoiados na ideia de que estão “apenas alugando por temporada”.
Em cidades médias e zonas periféricas, esse quadro dificulta o planejamento urbano: a prefeitura não sabe quantos leitos turísticos existem de fato, nem onde estão concentrados, o que impede políticas de mobilidade, segurança e infraestrutura adequadas.
“Sem cadastros confiáveis, é impossível planejar transporte, coleta de lixo ou fiscalização; a plataforma conhece o território melhor do que o poder público”, aponta Júlia Mendes, urbanista e consultora em políticas municipais.
Deslocamento de moradores
O movimento de captura de imóveis pelo turismo vem acompanhado, em muitos casos, por deslocamento silencioso de moradores permanentes.
Proprietários percebem que anunciar no Airbnb rende mais do que manter contratos longos de aluguel residencial, e passam a converter unidades ao mercado de temporada.
Moradores de baixa e média renda, diante da escassez de opções em áreas centrais ou turísticas, migram para bairros mais distantes, com menor oferta de serviços e transporte, alterando o tecido social dessas cidades.
A mudança não costuma aparecer em grandes estatísticas, mas se traduz em trajetos mais longos, em perda de redes de apoio e em fragmentação de comunidades que antes se reconheciam na mesma rua.
Leis tímidas
Enquanto a plataforma expande sua presença e se integra à lógica cotidiana de viagens, as respostas das legislações municipais seguem tímidas e desiguais.
Algumas grandes capitais ensaiam cadastros específicos, taxas de hospedagem ou limites por bairro, mas a maioria das cidades médias e destinos periféricos ainda não tem regras claras para locações de curta duração.
Essa ausência regulatória cria um ambiente em que a plataforma dita o ritmo da ocupação urbana, enquanto o poder público corre atrás para tentar enquadrar uma realidade já em curso.
No intervalo entre esses dois tempos – o digital, veloz, e o institucional, lento – consolidam-se geografias turísticas em que bairros inteiros se tornam extensão da economia de plataformas, sem debate profundo sobre quem ganha, quem perde e quem está sendo empurrado para fora do mapa.
















