Enquanto mapas de previsão climática alertam para um El Niño mais intenso e irregular em 2026, o Sistema Único de Saúde vem se movimentando longe dos holofotes.
Em encontros regionais, gestores e técnicos têm discutido protocolos de desastre, rotas alternativas de atendimento e novas formas de organizar a atenção básica em territórios vulneráveis.
São reuniões com linguagem técnica, poucos registros públicos e quase nenhuma tradução do que está sendo decidido para o cotidiano de quem depende do posto de saúde do bairro.
“Nos últimos meses, a pauta climática deixou de ser um tema ambiental e passou a ser um problema operacional de saúde”, relata a médica sanitarista Helena Prado, que atua na coordenação de uma rede municipal.
Segundo Helena, chuvas extremas, enchentes, longos períodos de calor e falta de água já mudam padrões de doença, pressionam estoques e inviabilizam, em alguns casos, o acesso físico às unidades.
Mas a população continua recebendo apenas alertas genéricos de defesa civil, sem saber como o SUS está, de fato, se reposicionando para esse cenário.
Estoques e protocolos
Uma parte importante da preparação silenciosa está na revisão de estoques e protocolos. Municípios costeiros e de encosta, mais sujeitos a deslizamentos e enchentes, têm sido orientados a antecipar medicamentos para doenças respiratórias, leptospirose e diarreias, além de materiais para atendimento de traumas.
Em regiões suscetíveis à seca e ondas de calor, cresce a preocupação com doenças cardiovasculares, desidratação em idosos e crianças, e surtos de arboviroses que se adaptam a novos regimes de temperatura e chuva.
Essa reorganização, porém, esbarra em limitações de orçamento e em logística fragilizada. “Não estamos falando apenas de ter mais remédios; é sobre ter o remédio certo na hora exata e no lugar adequado”, explica o farmacêutico de rede pública Marcelo Tavares. Ele lembra que enchentes podem destruir farmácias, o calor extremo pode afetar a conservação de vacinas e a falta de energia elétrica compromete equipamentos essenciais.
Em resposta, algumas regiões começam a desenhar planos de contingência que incluam estoques móveis, rotas alternativas e acordos com unidades privadas em caso de colapso local – tudo isso sem maior debate público.
Atenção básica redesenhada
Outra frente pouco visível é o redesenho da atenção básica. Agentes comunitários e equipes de saúde da família passam a ser treinados para atuar também como “sentinelas climáticos”: identificar sinais de agravamento de riscos em áreas de encosta, beira de rio ou periferias sujeitas à urbanização precária.
Em algumas cidades, visitas domiciliares já incorporam perguntas sobre condições de moradia diante de chuva extrema, acesso a água potável e possibilidade de deslocamento em caso de emergência.
Na prática, isso significa que o mapa da vulnerabilidade climática tende a se sobrepor ao mapa da vulnerabilidade social. “Se não integrarmos clima e desigualdade, vamos apenas correr atrás de crises recorrentes”, avalia a geógrafa e consultora em políticas urbanas Lívia Santos.
Ela defende que o SUS tenha assento permanente em comitês de gestão de risco climático e que os dados de saúde alimentem decisões sobre obras, transporte e saneamento.
Hoje, muitas dessas conexões ainda dependem da iniciativa de gestores locais mais engajados, sem uma coordenação nacional robusta.
Comunicação ausente
Talvez o ponto mais sensível da preparação climática do SUS seja o silêncio em torno dela. Embora haja esforço técnico, planos de contingência e ajustes nos bastidores, pouco disso é comunicado de forma clara para quem mais sofre os impactos: moradores de áreas de risco, pessoas idosas, populações rurais e comunidades tradicionais.
A mensagem dominante continua sendo a de “eventos extremos inevitáveis”, sem que se explique como o sistema de saúde pretende proteger essas pessoas – e o que elas podem esperar ou exigir.
Essa ausência de comunicação pública abre espaço para desinformação, improviso e desconfiança. Em situações de desastre, a população tende a se apoiar em redes informais, boatos e promessas pontuais de autoridades.
Ao não compartilhar seus planos, o próprio SUS perde a chance de engajar a sociedade em estratégias de prevenção, como monitoramento comunitário, organização de abrigos e identificação antecipada de grupos mais frágeis.
“Preparar-se em silêncio pode ser operacionalmente necessário em alguns momentos, mas não pode ser a regra”, alerta o especialista em gestão de risco Roberto Almeida.














