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Do lixo ao ativo: como a rastreabilidade pode destravar a economia circular brasileira

Redação por Redação
13 de março de 2026
em Empresas / Negócios
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Do lixo ao ativo: como a rastreabilidade pode destravar a economia circular brasileira
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Apesar de ter ganhado protagonismo na agenda ESG de empresas e investidores, a economia circular ainda enfrenta obstáculos estruturais para se consolidar no Brasil. O país gera mais de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, mas recicla apenas uma pequena fração desse volume.

Levantamentos recentes indicam que menos de 10% dos resíduos urbanos são efetivamente reciclados, enquanto a coleta seletiva ainda alcança pouco mais de um terço dos municípios brasileiros. O cenário revela um desafio que vai além da infraestrutura: a falta de organização e governança sobre os fluxos de materiais recicláveis ao longo da cadeia.

Na prática, o mesmo resíduo assume significados diferentes dependendo de quem participa do sistema. Para empresas geradoras, representa um risco regulatório e reputacional. Para trabalhadores e operadores da ponta, pode ser fonte de renda. Para investidores, trata-se de um ativo potencial cujo valor depende da previsibilidade do fluxo e da capacidade de fechamento de ciclos produtivos.

Quando essas leituras não se conectam, o sistema perde eficiência e valor econômico. Nos últimos anos, compromissos de sustentabilidade e metas corporativas ampliaram o debate sobre a circularidade no país. Ainda assim, transformar o conceito em um modelo econômico consistente exige mais do que compromissos ambientais ou relatórios de impacto.

Para Eduardo Nascimento, CEO da Minha Coleta, o avanço da economia circular depende principalmente da organização da cadeia de resíduos.

“A circularidade entrou na estratégia de muitas empresas, mas para funcionar como modelo econômico ela precisa de base operacional. Sem organização de dados, critérios comuns e governança sobre os fluxos, o sistema não fecha”, afirma.

Dados do setor indicam que o brasileiro gera, em média, mais de um quilo de resíduos por dia. Ao mesmo tempo, a coleta seletiva está presente em cerca de 38% dos municípios, com níveis muito diferentes de estrutura e eficiência entre as cidades. Em muitos casos, materiais recicláveis acabam contaminados ou desviados para aterros por falhas no processo de triagem.

Esse desalinhamento ao longo da cadeia ajuda a explicar por que grande parte do potencial econômico da reciclagem ainda se perde no país.

Nascimento avalia que o principal gargalo da economia circular brasileira não está apenas na etapa final da reciclagem.

“O problema central está na organização do sistema. Quando não existe padronização de critérios, qualificação da triagem e consolidação de dados ao longo da cadeia, o valor econômico do material se perde antes mesmo de chegar à reciclagem”, explica.

Outro fator estrutural é a dependência histórica do trabalho informal na coleta de recicláveis. Estudos sobre o setor indicam que uma parcela significativa da reciclagem no país ainda ocorre graças à atuação de catadores e cooperativas, responsáveis por recuperar parte relevante dos materiais descartados.

Ao mesmo tempo, novas tecnologias começam a surgir como ferramentas para organizar esse sistema. Plataformas digitais de gestão de resíduos e soluções baseadas em blockchain, por exemplo, vêm sendo testadas por empresas do setor para ampliar a rastreabilidade dos materiais e dar mais transparência às operações de logística reversa.

A própria Minha Coleta desenvolveu uma plataforma que utiliza blockchain para registrar e acompanhar o fluxo de resíduos ao longo da cadeia, permitindo maior confiabilidade na certificação de créditos ambientais e na comprovação de destinação adequada.

Para Nascimento, tecnologias desse tipo podem ajudar a resolver um dos problemas históricos do setor: a falta de confiança e rastreabilidade nas informações.

“A economia circular depende de dados confiáveis. Quando conseguimos rastrear o material desde a origem até a destinação final, reduzimos fraudes, evitamos duplicidade de informações e criamos um ambiente mais seguro para empresas e investidores”, afirma.

Para muitas empresas, a agenda de resíduos ainda começa como uma resposta a riscos regulatórios, operacionais ou reputacionais. O movimento é compreensível diante da crescente pressão por transparência ambiental e conformidade com políticas como a Política Nacional de Resíduos Sólidos.

No entanto, limitar a circularidade ao cumprimento de obrigações legais significa deixar de explorar o potencial econômico desse sistema.

Quando dados são organizados de acordo com os marcos regulatórios e os fluxos passam a ser rastreáveis, a cadeia ganha previsibilidade. Isso reduz perdas na triagem, melhora a eficiência da classificação dos materiais e fortalece relações entre geradores, operadores e recicladores.

“Quando o fluxo é estruturado, o resíduo deixa de ser apenas um passivo ambiental e passa a ser tratado como ativo econômico. Isso melhora a eficiência da triagem, reduz perdas e cria mais previsibilidade para toda a cadeia”, afirma o executivo.

Para que a economia circular avance de forma consistente no país, especialistas apontam a necessidade de estabelecer uma base comum de governança no setor. Isso envolve organização de dados confiáveis, definição de padrões mínimos de qualidade e rastreabilidade e maior alinhamento entre operação, reporte e tomada de decisão.

Dentro desse cenário, quem organiza informações e estabelece critérios técnicos passa a ocupar uma posição estratégica no sistema.

“A economia circular só ganha escala quando existe governança sobre os fluxos. Sem isso, as iniciativas continuam isoladas. Com estrutura, a circularidade deixa de ser apenas uma agenda ambiental e passa a funcionar como modelo econômico”, conclui Nascimento.

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