O recente sucesso de O Agente Secreto, aclamado internacionalmente e vencedor de prêmios como o Globo de Ouro de melhor filme em língua não-inglesa, reacende um debate que o cinema brasileiro vive desde seus primeiros documentários políticos: como registrar o passado sem cair em didatismo ou nostalgia?
Para a cineasta e produtora Celina Torrealba, formada em Cinema pela Universidade Sorbonne (França) e mestre em Documentário pela New York University, o filme não se limita à reconstituição histórica, mas faz da “vida banal” o seu território de reflexão. “O que mais me impactou no filme foi essa ideia de que a ditadura, e, por extensão, qualquer violência de Estado, não precisa aparecer como espetáculo para marcar. Ela está ali, nas falas cortadas, nas ruas. Essa tensão entre o visível e o invisível é um dos elementos que articulam as linguagens do cinema contemporâneo”, analisa.
A Ditadura na pele e na tela
Ao escolher o Recife de 1977 como cenário, O Agente Secreto transforma espaços ordinários, como um posto de gasolina ou um corredor de apartamento, em dispositivos de memória e vigilância. “Eu penso muito sobre isso quando trabalho com imagens de arquivo e testemunhos. Não são apenas fatos que importam, mas o modo como eles nos atravessam no dia a dia”, reforça a cineasta.
No filme, a ditadura não se impõe por episódios espetaculares, prisões ou discursos oficiais, mas pela atmosfera que rege o cotidiano. Telefones grampeados, documentos misteriosamente desaparecidos, identidades suprimidas: tudo isso é forma de controle. Para Celina, há um paralelo natural aqui com o documentário.
“No documentário, aquilo que não é dito ou mostrado tem tanto peso quanto o que é visível. O cinema documental sempre lidou com essas lacunas: fragmentos de memória, relatos truncados, ruídos de fita. Isso nos lembra que a memória é algo construído, sempre incompleta.”
Essa reflexão não é nova no cinema brasileiro. Filmes como Cidadão Boilesen e O Dia que Durou 21 Anos demonstram diferentes estratégias de reconstrução histórica, ora por meio de arquivos e entrevistas, ora por evidências políticas mais diretas.
Ainda assim, O Agente Secreto opera num território híbrido: é ficção, mas caminha pela mesma trilha de questionamento do documentário. “Por isso digo que esse filme tem algo documental em sua essência: ele nos obriga a olhar para o vazio, para aquilo que foi apagado, esquecido ou nunca dito”, afirma a cineasta. “Esse é um gesto profundamente cinematográfico.”
O Cinema como documento e como pergunta
Essa visão ecoa o que muitos cineastas documentais afirmam: que o cinema é, por si só, um documento histórico. Ele não apenas registra, mas cria um espaço de reflexão.
“Uma imagem pode nos enganar, mas ela nunca nos deixa indiferentes”, comenta a cineasta. “A função do cinema, seja ficcional ou documental, não é apresentar verdades prontas, mas suscitar perguntas.”
Em O Agente Secreto, essa pergunta passa pela memória coletiva e individual: o que lembramos? O que escolhemos esquecer? O que nunca foi contado?. Essa ideia de que memória e esquecimento são determinados socialmente é um fio que conecta a obra de Mendonça Filho com a prática documental. Não se trata de opor fato e ficção, mas de reconhecer que as duas linguagens se cruzam quando o objetivo é entender o passado.
Memória, resistência e cinema
Celina Torrealba, que já produziu documentários como Arte da Diplomacia (2023) e está finalizando seu primeiro longa documental, Ainda Sei Dançar, conclui destacando que o filme nos mostra que viver sob um regime autoritário significa aprender a conviver com a incompletude da informação e com o apagamento das referências.
“Para mim, cinema não é escapismo. É resistência”, conclui a cineasta. “O Agente Secreto nos lembra que lembrar não é apenas um ato de justiça, mas de humanidade. O cinema, em todas as suas formas, nos ajuda a manter essa chama viva.”











