Quem mora em Lisboa sabe o que significa chegar ao fim do mês com a sensação de que o dinheiro sumiu antes do tempo. A renda média de um apartamento de um quarto nas zonas centrais da cidade já ultrapassa os 1.200 euros. O salário mínimo nacional em 2025 era de 870 euros. Não é preciso fazer um cálculo elaborado para perceber que existe uma contradição difícil de resolver entre o que a cidade custa e o que a maioria das pessoas recebe.
Neste contexto, as despesas com entretenimento passaram a ser escrutinadas de uma forma que não acontecia há alguns anos. E entre elas está uma que cresceu de forma silenciosa nos orçamentos domésticos: as assinaturas de streaming. Para quem tem Netflix, Max, Disney+ e Prime Video activas em simultâneo, a conta mensal pode facilmente passar dos 50 euros. Para um trabalhador que recebe o salário mínimo, isso representa perto de 6% do rendimento bruto mensal, pago por quatro interfaces digitais distintas, cada uma com o seu login e o seu catálogo incompleto.
O que cada plataforma cobra em Portugal
Em Janeiro de 2025, a Netflix confirmou um novo aumento de preços em Portugal. O plano base passou para 8,99 euros por mês, o standard para 12,99 euros e o premium para 17,99 euros. O aumento variou entre um e dois euros consoante o plano, o que pode parecer pouco isolado, mas somado aos reajustes anteriores representa uma subida acumulada significativa desde que a plataforma chegou ao país em 2015.
A Max cobra 5,99 euros pelo plano Básico com Anúncios, lançado em Portugal em Abril de 2025, e valores mais elevados nos planos sem publicidade. O Disney+ custa 9,99 euros por mês no plano base e 13,99 euros no plano premium com resolução 4K. O Prime Video mantém-se como a opção mais acessível, mas passou a exibir publicidade no plano padrão sem qualquer aviso prévio aos subscritores, seguindo o modelo que impôs nos Estados Unidos e no Brasil. A Apple TV+ cobra 9,99 euros mensais.
Ter acesso completo a todas estas plataformas em simultâneo, nos planos sem anúncios e com melhor qualidade de imagem, pode chegar próximo dos 890 euros por ano, de acordo com levantamentos publicados por portais portugueses de comparação de preços. É mais do que um salário mínimo mensal inteiro, gasto exclusivamente em entretenimento digital.
O peso no orçamento de quem está pressionado pela habitação
Portugal registou em 2025 o maior aumento dos preços da habitação em toda a União Europeia, com uma escalada homóloga de 16,3% segundo dados do mercado imobiliário. Entre 2012 e 2021, os custos com habitação dispararam 78%, mais do dobro da média europeia. Em Lisboa e Porto, as rendas de apartamentos de tipologia T2 em zonas acessíveis já ultrapassam os 1.400 euros em muitas situações. Em Julho de 2025, mais de 31 mil famílias aguardavam habitação nos 18 municípios da Área Metropolitana de Lisboa.
Neste cenário, cada linha do orçamento doméstico passou a ter um peso diferente do que tinha há três ou quatro anos. Famílias que antes assinavam três ou quatro plataformas de streaming sem pensar muito nisso começaram a rever esse hábito quando as rendas subiram, quando a electricidade ficou mais cara e quando os preços no supermercado deixaram de ser o que eram antes da crise energética europeia. O salário médio em Portugal rondava os 1.694 euros no terceiro trimestre de 2025, mas o salário mais comum está muito abaixo disso, e em Lisboa uma percentagem significativa do rendimento vai para a habitação antes de qualquer outra despesa.
O problema não é exclusivo de quem recebe o mínimo. Um casal sem filhos a viver em Lisboa com rendimentos médios, depois de pagar renda, transportes, alimentação e contas básicas, tem um espaço de manobra para o lazer que não é ilimitado. E dentro desse espaço, pagar 50 euros por mês em plataformas de streaming passou a ser uma escolha consciente, não automática.
O que muda quando a assinatura deixa de ser automática
O comportamento dos consumidores europeus perante os aumentos de preço do streaming tem seguido um padrão já documentado noutros mercados: cancelamento de plataformas secundárias, migração para planos mais baratos com anúncios e adopção de uma lógica rotativa de subscrições. Assina-se uma plataforma por um ou dois meses, consome-se o que interessa e cancela-se antes do próximo ciclo de cobrança.
Este comportamento é racional e compreensível, mas tem custos que nem sempre são contabilizados. O tempo gasto a gerir subscrições, a verificar datas de renovação, a pesquisar em que plataforma está o conteúdo que se quer ver, representa um trabalho de administração doméstica que não existia quando o entretenimento era mais simples. A existência de aplicações como o JustWatch, usadas por milhões de pessoas em todo o mundo para descobrir em que plataforma está um determinado filme ou série, é o sintoma mais claro deste problema: o mercado criou tanta fragmentação que precisou de uma ferramenta externa para ajudar os consumidores a navegar nele.
As alternativas que o mercado português está a encontrar
Quando as plataformas pagas sobem os preços de forma consistente e a experiência continua fragmentada, uma parte do público começa a procurar alternativas que centralizem o acesso ao entretenimento a um custo fixo mais previsível. O crescimento do interesse pelo IPTV Portugal insere-se exactamente neste contexto: trata-se de serviços que entregam canais ao vivo, catálogos de filmes e séries e conteúdo internacional numa interface única, por mensalidades que ficam significativamente abaixo do que custaria manter três ou quatro plataformas de streaming em simultâneo.
Esta não é uma tendência exclusivamente portuguesa. No Brasil, país com o qual Portugal partilha o idioma e muitos hábitos culturais, os reajustes sucessivos das plataformas de streaming produziram exactamente o mesmo efeito: cancelamentos em massa, crescimento de alternativas gratuitas como o YouTube e aumento da procura por serviços que ofereçam centralização em vez de fragmentação. Os dados brasileiros mostram que 39% dos utilizadores planeavam cancelar pelo menos uma assinatura em 2025 e que 64% já o tinham feito em algum momento. Portugal não tem dados equivalentes publicados com a mesma regularidade, mas os padrões de comportamento do consumidor europeu em geral apontam na mesma direcção.
O que a conta de luz tem a ver com o streaming
O título deste artigo não é uma metáfora gratuita. Em Portugal, a factura de electricidade para uma habitação de dimensão média ficava, em 2025, entre 60 e 100 euros por mês, dependendo da potência contratada, do consumo e da tarifa aplicada. Ter acesso completo a todas as plataformas de streaming disponíveis no país custava, no máximo, um valor semelhante ou superior.
A comparação não é para dizer que o entretenimento digital custa demasiado em termos absolutos. É para enquadrar a despesa no contexto de um orçamento doméstico real. Quando um serviço de entretenimento opcional custa tanto quanto uma utilidade básica, a decisão de mantê-lo activo passa a ser avaliada com critérios diferentes dos que se aplicavam quando o streaming era barato e a habitação ainda estava a preços acessíveis.
O que o consumidor português está a fazer, de forma crescente, é exigir mais valor pelo que paga. Menos plataformas, usadas com mais intensidade. Alternativas que reduzam o número de subscrições sem reduzir o acesso ao conteúdo. E uma maior disposição para explorar serviços que, há dois ou três anos, não fariam parte da equação, mas que hoje representam uma resposta concreta à conta que, de outra forma, não fecha.
















