Os programas sociais brasileiros desempenham um papel fundamental na redução da vulnerabilidade social e na preservação da dignidade de milhões de famílias. Os números comprovam sua relevância: atualmente, o Bolsa Família atende cerca de 19 milhões de famílias, enquanto aproximadamente 96 milhões de brasileiros estão inscritos no Cadastro Único para programas sociais. Mais do que isso, dados recentes do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social mostram que pessoas cadastradas nesses programas responderam por mais de 80% dos empregos formais criados no país no início de 2026.
Esses indicadores revelam uma realidade importante: assistência social e desenvolvimento econômico não são forças opostas. Pelo contrário, podem atuar de forma complementar quando estruturadas dentro de uma estratégia que estimule a autonomia econômica. É nesse contexto que ganha relevância o conceito de assistencialismo produtivo.
Muitas vezes, assistencialismo produtivo e inclusão produtiva são tratados como sinônimos, mas existem diferenças importantes entre eles. A inclusão produtiva tem como objetivo a independência financeira por meio da inserção permanente na atividade econômica, seja pelo emprego formal, pelo empreendedorismo ou pela capacitação profissional. Já o assistencialismo produtivo funciona como uma etapa de transição, em que o apoio oferecido ao cidadão é acompanhado por instrumentos capazes de favorecer sua evolução profissional e econômica.
Na minha avaliação, os programas sociais podem alcançar resultados ainda mais expressivos quando incorporam mecanismos voltados ao desenvolvimento de competências e à aproximação entre trabalhadores e oportunidades de emprego. O desafio contemporâneo não está em escolher entre assistência social e mercado de trabalho, mas em construir pontes eficientes entre esses dois universos.
A proteção social continua sendo indispensável. No entanto, ela pode ser potencializada quando associada a políticas que estimulem qualificação, empregabilidade e geração de renda. Quanto mais eficazes forem esses mecanismos de transição, maiores serão as possibilidades de mobilidade econômica para milhões de brasileiros.

Uma das iniciativas que considero relevantes nesse processo é a criação de uma plataforma nacional integrada de empregabilidade. Um ambiente capaz de reunir trabalhadores, empresas e instituições de capacitação poderia facilitar o acesso dos beneficiários de programas sociais a vagas compatíveis com seus perfis profissionais, além de oferecer cursos, treinamentos técnicos e programas de atualização de competências.
A tecnologia tem potencial para desempenhar um papel decisivo nessa transformação. Hoje já existem ferramentas capazes de identificar perfis profissionais, mapear demandas do mercado e direcionar capacitações específicas. Integrar essas soluções às políticas sociais pode aumentar significativamente a efetividade das ações públicas, reduzindo barreiras que ainda dificultam o encontro entre quem procura uma oportunidade e quem precisa contratar.
Os benefícios de uma estratégia baseada no assistencialismo produtivo vão além das famílias diretamente atendidas. O aumento da qualificação profissional contribui para elevar a produtividade das empresas, ampliar a formalização do trabalho e fortalecer a atividade econômica em diferentes regiões do país. Ao mesmo tempo, programas orientados para a autonomia tendem a criar ciclos sustentáveis de desenvolvimento, permitindo que mais pessoas construam estabilidade financeira ao longo do tempo.
Os avanços observados nos últimos anos reforçam esse potencial. Desde 2023, mais de 5 milhões de famílias deixaram o Bolsa Família após registrarem aumento de renda. Trata-se de um indicativo relevante de que a rede de proteção social pode funcionar também como uma porta de entrada para novas oportunidades econômicas.
Em um cenário marcado pelas transformações do mercado de trabalho e pela crescente demanda por qualificação profissional, acredito que a discussão deve evoluir. Menos do que debater assistência, precisamos discutir oportunidades. O desafio está em criar mecanismos que permitam que cada vez mais brasileiros utilizem a proteção social como ponto de partida para construir trajetórias econômicas mais autônomas, sustentáveis e produtivas.
Sandro Tordin
Sandro Tordin é executivo do setor financeiro e de infraestrutura. Atuou como CEO do Banco Ficsa S/A, liderando processos de aquisição, desenvolvimento e alienação de negócios em parceria com Polimix, Equipav e Delmont.
Foi presidente do Conglomerado Financeiro Schahin, conduzindo uma reestruturação estratégica com impacto relevante nos resultados da instituição. É graduado em Administração com ênfase em Análise de Sistemas pela FASP, possui especialização em Economia pela FAAP e está em certificação como Conselheiro e em ESG pelo IBGC.
Com experiência em engenharia, construção, energia e mineração, participou de operações de project finance, avaliação de ativos e gestão financeira. Atualmente, é CEO da Verino, concentrado em projetos financeiros e criação de valor por meio de fusões e aquisições.














