A transformação digital costuma ser associada ao desenvolvimento de novas tecnologias, mas um movimento menos visível vem alterando o mercado jurídico.
Empresas responsáveis por telecomunicações, computação em nuvem, transmissão de dados, serviços de streaming, data centers e infraestrutura crítica passaram a buscar profissionais capazes de compreender tanto o ambiente regulatório quanto os aspectos técnicos que sustentam esses negócios.
O resultado é a valorização de um perfil híbrido de advogado, que vai além da interpretação das normas e participa diretamente de decisões estratégicas.
Nova demanda
Durante muitos anos, departamentos jurídicos concentraram seus esforços na elaboração de contratos, no contencioso e no acompanhamento regulatório tradicional.
Agora, cresce a necessidade de profissionais que consigam dialogar com engenheiros, especialistas em redes, equipes de segurança da informação e executivos responsáveis por operações altamente complexas.
Questões envolvendo compartilhamento de infraestrutura, instalação de cabos submarinos, licenciamento de data centers, uso de espectro de radiofrequência, continuidade operacional e proteção de dados passaram a fazer parte da rotina de escritórios e departamentos jurídicos.
“Hoje, o advogado precisa compreender como funciona uma rede de telecomunicações ou uma estrutura em nuvem para avaliar riscos contratuais e regulatórios de forma adequada”, afirma Marcelo Tavares, diretor jurídico da Associação Brasileira de Infraestrutura Digital.
Segundo ele, a formação exclusivamente jurídica já não atende todas as necessidades de empresas que operam ativos considerados essenciais para a economia digital.
Novas funções
O perfil híbrido também altera a forma como esses profissionais participam das decisões corporativas. Em vez de serem consultados apenas após o surgimento de um problema, eles passaram a integrar projetos desde as fases iniciais, contribuindo para reduzir riscos regulatórios e acelerar processos de implantação.
Esse movimento é percebido principalmente em empresas que administram grandes estruturas de conectividade, centros de processamento de dados e plataformas digitais que dependem de alta disponibilidade.
Além do conhecimento das normas nacionais, esses especialistas precisam acompanhar padrões internacionais, contratos envolvendo fornecedores estrangeiros e exigências relacionadas à segurança cibernética, continuidade dos serviços e governança digital.
Mercado aquecido
Consultorias de recrutamento relatam que cresce o interesse por profissionais que possuam especializações em telecomunicações, direito digital ou infraestrutura tecnológica, mas que também sejam capazes de interpretar documentos técnicos e participar de negociações multidisciplinares.
“Os processos seletivos passaram a valorizar candidatos que consigam conversar com diferentes áreas da empresa sem depender de traduções técnicas a cada reunião”, observa Fernanda Oliveira, sócia da consultoria Nexus Executive Search, especializada em recrutamento para o setor jurídico.
Na prática, essa mudança amplia o leque de oportunidades para advogados que investem em capacitação contínua e desenvolvem conhecimentos fora da formação tradicional.
Formação
Universidades e instituições de ensino também começam a perceber essa transformação.
Cursos de pós-graduação incorporam disciplinas sobre infraestrutura digital, proteção de dados, telecomunicações, computação em nuvem e governança tecnológica, enquanto programas de educação executiva aproximam profissionais do direito de áreas como engenharia, tecnologia da informação e gestão de riscos.
A tendência é que essa integração se torne cada vez mais frequente, acompanhando a expansão de investimentos em conectividade, processamento de dados e serviços digitais.
Perspectivas
À medida que a infraestrutura digital ganha importância para praticamente todos os setores econômicos, cresce também a necessidade de profissionais capazes de unir conhecimento jurídico e compreensão técnica.
Mais do que interpretar normas, esses especialistas passam a atuar como elo entre diferentes áreas da empresa, contribuindo para decisões que envolvem investimentos, inovação e segurança operacional.
O avanço desse perfil híbrido revela uma transformação silenciosa da advocacia empresarial, cuja relevância tende a aumentar conforme a economia se torna mais dependente de redes, dados e infraestrutura crítica.














