As marcas aos poucos não estão mais perseguindo a imagem da perfeição. Logos minimalistas, campanhas sofisticadas, feeds organizados e comunicação cuidadosamente polida dominaram o universo corporativo. Mas uma mudança acelerada nas primeiras semanas de 2026 começa a virar essa lógica de cabeça para baixo.
Cada vez mais empresas estão abandonando a estética limpa e profissional para apostar justamente no contrário: humor absurdo, aparência improvisada, mascotes esquisitos e campanhas propositalmente “bagunçadas”.
O curioso é que isso não acontece por falta de planejamento. O caos virou estratégia.
Cansaço digital
A principal razão para essa transformação parece ser o desgaste provocado pelo excesso de perfeição nas redes sociais. Consumidores mais jovens passaram a enxergar campanhas excessivamente refinadas como artificiais e previsíveis.
O resultado é uma valorização crescente do que parece espontâneo — mesmo quando existe uma equipe inteira planejando aquela aparência despretensiosa.
A especialista em branding digital Camila Torres afirma que muitas empresas perceberam uma mudança importante no comportamento online.
“As pessoas ficaram cansadas de comunicação corporativa que parece distante e ensaiada. Hoje, conteúdos estranhos, imperfeitos e até meio constrangedores conseguem gerar mais identificação”, diz.
Isso ajuda a explicar por que campanhas visualmente “toscas” começaram a acumular milhões de visualizações.
Cringe calculado
Uma das facetas menos exploradas desse fenômeno é o uso proposital do chamado “cringe”. Marcas passaram a utilizar piadas ruins, edições aparentemente malfeitas, memes sem sentido e até personagens desconfortavelmente estranhos para chamar atenção. O objetivo não é parecer sofisticado. É parecer humano.
Em alguns casos, empresas abandonam completamente o tom institucional e começam a se comunicar quase como perfis pessoais. Comentários irônicos, respostas absurdas e linguagem típica de shitpost passaram a fazer parte da estratégia digital de vários setores.
Fast food, bebidas e moda jovem lideram esse movimento porque dependem fortemente de engajamento nas redes.
Estética do erro?
Outra mudança importante aparece no visual das campanhas. Durante anos, marcas tentaram transmitir sensação de controle absoluto. Agora, algumas parecem fazer exatamente o contrário.
Embalagens “imperfeitas”, fontes exageradas, animações propositalmente estranhas e vídeos com aparência amadora começaram a se multiplicar.
O diretor criativo Bruno Valença afirma que parte do mercado percebeu que a estética limpa perdeu impacto.
“Quando todo mundo parece sofisticado o tempo inteiro, o que chama atenção é justamente o que quebra essa lógica”, afirma.
Segundo ele, o excesso de padronização visual tornou muitas campanhas praticamente indistinguíveis umas das outras.
Meme corporativo
As redes sociais aceleraram ainda mais essa transformação. Conteúdos absurdos, inesperados ou visualmente caóticos costumam gerar compartilhamento rápido porque funcionam como entretenimento imediato.
Isso criou uma mudança importante: muitas marcas deixaram de competir apenas por credibilidade e passaram a disputar atenção através do humor estranho.
Em alguns casos, o próprio desconforto virou ferramenta de marketing. Quanto mais inesperada ou “sem noção” parece a campanha, maior tende a ser o debate online.
Fim da pose
Talvez a maior mudança esteja justamente na quebra da antiga imagem corporativa. Durante décadas, empresas tentaram parecer sérias, impecáveis e distantes.
Agora, muitas querem transmitir exatamente o contrário: espontaneidade, imperfeição e vulnerabilidade.
No ambiente digital de 2026, parecer excessivamente profissional pode soar menos humano — e, para muitas marcas, isso se tornou um problema maior do que parecer um pouco ridículo.
















