Durante anos, a relação entre clientes e instituições financeiras foi relativamente simples. Bancos guardavam informações sobre movimentações, renda e histórico de crédito, enquanto consumidores tinham pouco controle sobre o destino desses dados.
Nos últimos anos, porém, uma transformação silenciosa alterou essa dinâmica. Com a expansão do Open Finance, milhões de brasileiros passaram a autorizar o compartilhamento de informações financeiras entre diferentes empresas.
O sistema foi criado para aumentar a concorrência, facilitar o acesso a produtos financeiros e permitir que clientes tenham mais liberdade para migrar entre instituições.
Mas, à medida que a adesão cresce, uma questão começa a ganhar importância: quem está lucrando com essa gigantesca circulação de dados?
Embora o debate público costume se concentrar nos benefícios para o consumidor, especialistas apontam que uma nova economia baseada em informações financeiras está surgindo nos bastidores.
Nova moeda
Mais do que dinheiro, os dados passaram a representar uma das matérias-primas mais valiosas do mercado financeiro.
Ao autorizar o compartilhamento de informações por meio do Open Finance, o consumidor permite que empresas tenham acesso a dados como renda, frequência de compras, padrão de pagamentos, utilização de crédito e comportamento financeiro ao longo do tempo.
Essas informações ajudam instituições a criar ofertas personalizadas, reduzir riscos e identificar oportunidades de negócio.
“A grande mudança é que os dados deixaram de ficar concentrados em um único banco. Hoje eles podem ser utilizados para construir uma visão muito mais ampla sobre os hábitos financeiros das pessoas”, afirma Helena Prado, economista especializada em inovação financeira.
Segundo ela, a capacidade de interpretar essas informações tornou-se um diferencial competitivo tão importante quanto oferecer juros menores ou atendimento mais eficiente.
Além dos bancos
Uma das percepções mais comuns entre consumidores é a de que apenas bancos utilizam os dados compartilhados. Na prática, o ecossistema é muito mais amplo.
Fintechs, seguradoras, plataformas de investimento e até grandes varejistas têm desenvolvido estratégias para utilizar informações financeiras na criação de produtos e serviços.
Em alguns casos, o objetivo é oferecer crédito com maior precisão. Em outros, identificar tendências de consumo antes mesmo que o cliente perceba mudanças em seu próprio comportamento.
Uma pessoa que começa a pesquisar imóveis, por exemplo, pode apresentar movimentações financeiras que indiquem intenção de compra meses antes da contratação de um financiamento.
O mesmo ocorre com consumidores que estão planejando viagens, trocando de veículo ou ampliando gastos familiares.
Consumo previsto
A possibilidade de antecipar decisões de compra está entre os aspectos menos discutidos do Open Finance.
Empresas vêm investindo em modelos analíticos capazes de transformar movimentações financeiras em previsões de comportamento.
“O dado financeiro é extremamente valioso porque mostra o que as pessoas fazem, não apenas o que elas dizem que fazem”, explica Marcelo Nogueira, consultor de estratégia digital e inteligência de mercado.
Segundo ele, informações financeiras tendem a ser mais precisas do que pesquisas tradicionais de consumo.
“Quando uma empresa consegue identificar padrões recorrentes de gastos, ela passa a prever necessidades futuras com um grau de precisão muito elevado. Isso muda completamente a forma de vender produtos e serviços”, afirma.
Na prática, isso significa que promoções, ofertas de crédito e campanhas de marketing podem ser direcionadas de maneira cada vez mais personalizada.
Nova disputa
O crescimento do Open Finance também está alterando a competição entre instituições financeiras.
Durante décadas, os grandes bancos mantiveram vantagem por concentrarem enormes volumes de informações sobre seus clientes. Agora, parte desse diferencial pode ser compartilhada mediante autorização do usuário.
Isso abriu espaço para que empresas menores disputem consumidores em condições mais equilibradas.
Ao mesmo tempo, especialistas alertam que uma nova corrida está em andamento: a disputa não é apenas pelos clientes, mas pela capacidade de interpretar melhor os dados disponíveis.
Nesse cenário, tecnologia, análise preditiva e inteligência de mercado tornam-se ativos estratégicos.
Limites
Apesar do potencial econômico, o compartilhamento de informações continua sujeito às regras da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e depende da autorização do consumidor.
Ainda assim, muitos usuários desconhecem quais dados estão compartilhando, por quanto tempo a autorização permanece ativa ou quais empresas podem acessar essas informações.
Para especialistas, o desafio dos próximos anos será aumentar a transparência sobre o uso dos dados e permitir que consumidores compreendam melhor o valor econômico das informações que produzem diariamente.
Enquanto isso, uma transformação silenciosa continua avançando. Se antes o principal produto das instituições financeiras era o dinheiro, agora a disputa mais valiosa pode estar acontecendo em torno de algo menos visível: os dados que revelam como cada brasileiro vive, compra, investe e planeja o próprio futuro.

















