A próxima transformação do setor elétrico poderá acontecer longe das grandes usinas. Em vez de apenas consumir eletricidade, edifícios, condomínios, indústrias e até veículos elétricos começam a ser vistos como ativos capazes de fornecer energia à rede em momentos de maior demanda.
O conceito conhecido como everything-to-grid desperta interesse de distribuidoras, incorporadoras e empresas de tecnologia, mas o maior desafio talvez não seja técnico.
A questão que mobiliza o mercado é saber se o Brasil conseguirá adaptar seu modelo regulatório e comercial para transformar essa possibilidade em um novo negócio.
Mercado
A infraestrutura elétrica brasileira reúne características favoráveis para a expansão de sistemas inteligentes, especialmente pelo avanço da geração distribuída e pelo crescimento dos investimentos em digitalização das redes.
Nos bastidores do setor, distribuidoras e empresas de tecnologia já participam de projetos-piloto voltados à integração entre baterias, painéis solares, veículos elétricos e sistemas de gerenciamento energético.
O interesse cresce porque essas soluções podem reduzir a necessidade de investimentos em expansão da rede durante horários de pico. Em vez de construir novas estruturas para atender aumentos temporários de consumo, parte da demanda poderia ser atendida pela energia armazenada em consumidores conectados.
“O valor econômico está menos na venda de energia e mais na prestação de serviços para estabilizar a rede elétrica”, afirma Leonardo Farias, consultor em infraestrutura energética.
Condomínios
Para administradoras e incorporadoras, surge uma oportunidade pouco discutida. Condomínios equipados com sistemas de armazenamento, painéis solares e carregadores inteligentes poderão negociar excedentes energéticos ou participar de programas de resposta à demanda, caso o ambiente regulatório avance nessa direção.
Esse modelo altera a lógica tradicional da gestão predial. A energia deixa de representar apenas um custo operacional e passa a ser considerada um ativo com potencial de geração de receitas, especialmente em empreendimentos de maior porte.
Além disso, edifícios preparados para operar de forma integrada com a rede tendem a ganhar relevância em um mercado imobiliário que começa a valorizar atributos ligados à eficiência energética e à redução de despesas permanentes.
Imóveis
Construtoras acompanham esse movimento com atenção. Alguns projetos recentes já reservam espaço para baterias, infraestrutura destinada ao carregamento de veículos elétricos e sistemas de automação capazes de administrar o fluxo energético do edifício.
Essa preparação pode representar um diferencial competitivo nos próximos anos, principalmente em empreendimentos corporativos e condomínios residenciais de padrão médio e alto.
Para investidores, imóveis adaptados a essas tecnologias podem apresentar maior atratividade em razão da possibilidade de reduzir custos operacionais e ampliar a resiliência diante de oscilações no fornecimento de energia.
“A infraestrutura energética passa a influenciar o valor percebido dos imóveis da mesma forma que aconteceu com a conectividade digital nos últimos anos”, explica Carolina Mendes, diretora de inovação da consultoria Urban Tech Brasil.
Desafios
Apesar das oportunidades, especialistas apontam que a consolidação desse mercado depende da evolução das normas que disciplinam remuneração, medição da energia fornecida, segurança cibernética e integração entre distribuidoras e consumidores.
Também será necessário ampliar investimentos em medidores inteligentes, plataformas digitais e sistemas capazes de coordenar milhões de equipamentos conectados simultaneamente.
“O maior desafio deixou de ser instalar a tecnologia. Agora é construir um modelo de negócios que remunere todos os participantes de forma equilibrada”, avalia Rafael Guimarães, engenheiro eletricista especializado em redes inteligentes.
Se as adaptações regulatórias acompanharem a velocidade da inovação, a infraestrutura elétrica poderá deixar de ser apenas um serviço essencial para se tornar um novo mercado de ativos energéticos, criando oportunidades para empresas, condomínios, investidores e para o próprio setor imobiliário.
















