O mercado publicitário brasileiro começou a conviver com um novo tipo de influenciador: personagens que não existem fora da tela. Criados por inteligência artificial, esses avatares já acumulam seguidores, fecham campanhas e começam a disputar espaço com creators humanos em ações de marcas.
O fenômeno ainda parece pequeno, mas avança de forma silenciosa. Enquanto parte do público encara essas figuras como piada ou curiosidade estética, empresas começam a perceber uma vantagem estratégica poderosa: influenciadores sintéticos não envelhecem, não entram em crise, não faltam a campanhas e podem produzir conteúdo em escala praticamente infinita.
A mudança inaugura uma nova etapa da creator economy brasileira — uma em que rostos digitais deixam de ser experimento visual e passam a funcionar como propriedade intelectual.
Escala
A força dos avatares artificiais está justamente naquilo que os creators humanos não conseguem controlar: previsibilidade absoluta.
Um personagem gerado por IA pode aparecer em dezenas de campanhas simultaneamente, adaptar linguagem para diferentes públicos e manter presença contínua nas redes sem desgaste físico ou emocional.
Isso altera o cálculo econômico das agências e das marcas.
“O influenciador sintético é uma mídia programável”, afirma a pesquisadora de cultura digital Nina da Hora. “Você consegue ajustar comportamento, tom de voz e estética sem depender das limitações humanas.”
O impacto vai além da publicidade. Algumas empresas já discutem criar personagens proprietários em vez de contratar influenciadores externos. Na prática, seria como possuir um creator exclusivo funcionando permanentemente para a marca.
Humor
No Brasil, o avanço desse modelo ganhou impulso por um elemento específico: o humor. Diferentemente de mercados que apostaram primeiro em avatares hiper-realistas, o público brasileiro parece responder melhor a personagens absurdos, exagerados ou visualmente caricatos.
Foi exatamente isso que ajudou a impulsionar a viralização de Marisa Maiô, personagem artificial que rapidamente se espalhou pelas redes sociais em vídeos que misturavam humor popular, estética televisiva e linguagem exageradamente brasileira.
O caso mostrou algo importante para o mercado: autenticidade cultural pode importar mais do que realismo técnico.
“O brasileiro aceita o artificial quando reconhece identidade cultural ali”, diz o estrategista digital Rodrigo Ghedin. “O problema nunca foi a IA parecer falsa. O problema era parecer estrangeira demais.”
Essa percepção começa a influenciar o próprio desenvolvimento dos personagens sintéticos no país. Em vez de copiar modelos internacionais minimalistas, criadores brasileiros apostam em sotaque, exagero, ironia e referências locais.
Disputa
O crescimento dos avatares também cria tensão dentro da creator economy tradicional. Muitos influenciadores observam com preocupação a possibilidade de marcas substituírem contratos humanos por personagens digitais mais baratos e controláveis.
A questão financeira pesa. Um avatar pode gerar conteúdo contínuo sem custos logísticos elevados, sem agendas complexas e sem risco de cancelamentos pessoais.
Ao mesmo tempo, agências começam a estruturar verdadeiros “castings artificiais”. Em vez de buscar creators no mercado, desenvolvem personagens próprios para licenciamento comercial.
Isso abre uma discussão ainda pouco explorada: quem é dono de uma personalidade criada por inteligência artificial?
Questões jurídicas
A popularização dos influenciadores sintéticos também levanta debates jurídicos delicados. Especialistas discutem desde direitos autorais até possíveis conflitos envolvendo uso de imagem, voz e semelhanças involuntárias com pessoas reais.
Outra preocupação envolve o chamado “deepfake branding”: personagens artificiais criados para parecer espontaneamente humanos, sem deixar claro que foram produzidos por IA.
Esse cenário pode pressionar plataformas e anunciantes a desenvolver novas regras de transparência digital.
Ativos comerciais
Os influenciadores artificiais ainda parecem novidade experimental, mas o mercado publicitário já começou a tratá-los como ativos comerciais reais. O mais curioso é que essa transformação não depende apenas de tecnologia sofisticada.
Ela depende principalmente de narrativa.
No fim, o público talvez não esteja procurando pessoas reais nas redes sociais. Talvez esteja procurando personagens capazes de entreter, gerar identificação e ocupar espaço constante no feed — mesmo que nunca tenham existido de verdade.
















